Castiel foi entrando naquele buraco com o bumbum tão apertado que não passava nem sinal de wi-fi. O frio lá dentro não era brincadeira, parecia que tinham instalado um freezer industrial no modo turbo dentro da montanha. Ele tateou a parede e sentiu uma coisa gosmenta, mas quando aproximou a chuvinha de luz do isqueiro, quase soltou um palavrão que faria o padre da cidade lavar a boca dele com sabão. As paredes não estavam só sujas; elas estavam pintadas de um vermelho vivo, um sangue que parecia que tinha sido jogado com balde, escorrendo pelas pedras e formando poças que refletiam a luz trêmula. — Mas que desgrama é essa? Parece que o bicho resolveu pintar a casa e o balde de tinta era um pobre coitado. — Se esse sangue todo for de uma pessoa só, o sujeito já não é mais gente, é só saudade e lembrança. Ele continuou avançando, tentando não escorregar naquela meleca vermelha. O cheiro de ferro enferrujado agora estava tão forte que ele conseguia sentir o gosto no céu da boca. Castiel apertou a espingarda contra o peito, sentindo o suor frio escorrer pelas costas apesar do gelo que fazia ali dentro. De repente, lá no fundo, onde a caverna abria num salão mais largo, ele ouviu um gemido baixinho, um som de quem já não tinha mais força nem pra chorar. — Juca? É você, moleque? Dá um sinal de vida antes que eu comece a atirar em fantasma por engano! Ele apertou o passo e, num canto da caverna, em cima de uma pilha de feno mofado e resto de couro, ele viu o rapaz. O Juca estava num estado que dava dó de ver. A camisa xadrez dele estava em trapos, o rosto parecia um mapa de arranhões e tinha tanto sangue em volta dele que o Castiel achou que o guri estava oco. Mas quando a luz do isqueiro bateu no olho dele, o moleque deu uma piscada lenta — Nossa Senhora da Bicicletinha... você tá mais estropiado que para-choque de caminhão de lixo, Juca! — "Cas... tiel? É... você? Tira... tira eles... de perto..." — Calma aí, guri, que o tio Casti chegou. Vou te tirar desse spa do inferno agorinha mesmo, só não morre agora que o seu pai me mata depois. Castiel se agachou e começou a rasgar um pedaço da própria camisa pra amarrar na perna do Juca, que tinha um buraco de mordida que parecia ter sido feito por um grampeador gigante. Ele fazia o curativo com as mãos tremendo, tentando não olhar muito pro lado, mas a curiosidade — ou o azar — falou mais alto. Ele levantou o isqueiro pra ver o resto do salão e o que ele viu fez o resto de café no estômago dele querer dar um mortal pra trás. Lá no fundo, pendurados no teto e grudados nas paredes como se fossem morcegos mutantes, tinha um ninho de tudo que é desgraça que o povo conta em volta da fogueira. Tinha as sombras compridas, os Sedentos que ele já conhecia, mas tinha coisa pior. Tinha uns bichos brancos, pelados, que pareciam gente que foi esticada numa máquina de tortura, uns espíritos que brilhavam com uma luz doente e uns bicho que parecia uma mistura de porco com aranha, tudo dormindo ou esperando a escuridão da noite lá fora. — Mas que pariu... isso aqui não é uma caverna, é a convenção anual dos monstros e eu esqueci de trazer o convite. — Caramba, tem bicho aqui pra assombrar Rivergrove por três gerações. Se um desses acorda e resolve pedir um lanche, o lanche sou eu e o Juca de sobremesa. Castiel terminou o nó no curativo do Juca e percebeu que um dos bichos brancos deu uma mexidinha na orelha, como se tivesse ouvido o barulho do pano rasgando. O suor de Castiel agora congelava na testa. Ele percebeu que se desse um tiro ali, ia ser como jogar uma pedra num vespeiro de marimbondo de fogo. — Juca, presta atenção no que eu vou te falar. Eu vou te carregar no lombo, e você vai ficar calado como se tivesse num velório e o morto fosse você. Se você der um pio, a gente vai conhecer o capeta pessoalmente em cinco segundos. — "Eles... eles bebem... a gente... Castiel... não deixa... eles me... pegarem..." — Ninguém vai pegar ninguém, moleque. Agora sobe aqui e tenta não sangrar muito na minha nuca que esse terno é caro. Castiel jogou a espingarda na bandoleira, pegou o Juca no colo — que estava leve como uma pena de tão murcho que o bicho tinha deixado ele — e começou a andar de costas, devagarzinho, sem tirar os olhos do ninho. Cada passo era uma agonia. Uma pedrinha que caía parecia uma explosão de dinamite no silêncio daquela tumba. — "Fogo... cadê... o fogo?..." — um dos espíritos sussurrou no alto, mudando de cor de um azul pálido pra um cinza fumaça. — O fogo tá na sua vovozinha, bicho feio! Fica aí dormindo que é melhor pra todo mundo. — Meu Deus do céu, se eu sair dessa eu viro crente, prometo que não falo mais palavrão nem bebo a pinga do Valdir por uma semana... tá, por três dias. Ele conseguiu chegar na parte estreita da fenda, sentindo o ar lá de fora começando a entrar. O Juca soltou um gemido de dor e um dos monstros, uma sombra que estava grudada na entrada, se desenrolou como se fosse um tapete. Castiel não esperou pra ver o resto. Ele se virou e saiu correndo pela mata, com o Juca pulando nas costas dele e os galhos batendo na sua cara. Ele só parou quando chegou na caminhonete. Jogou o Juca no banco do passageiro com o cuidado de quem carrega uma caixa de ovos e pulou no banco do motorista, dando a partida na C10 que, por um milagre divino, pegou de primeira. — Voa, minha filha! Voa que o bicho tá vindo atrás da gente e eu não quero ver o retrovisor! — Nossa Senhora, que vontade de mijar nas calças... o medo é um negócio que desregula todo o sistema da gente. Ele saiu fritando pneu na terra, deixando uma nuvem de poeira pra trás. Enquanto dirigia feito um louco em direção à cidade, o cérebro do Castiel estava trabalhando a mil por hora. O plano do coreto foi uma brincadeirinha de criança perto do que ele ia ter que enfrentar agora. — Aquilo lá não era um ataque isolado, era um exército se preparando. Sombras, espíritos, sugadores... o catálogo completo do azar. — Se eu quiser limpar aquele buraco, eu vou precisar de mais do que rojão e querosene. Vou precisar de uma engenharia de guerra que o General nenhum conhece. Ele olhou pro Juca, que tinha apagado de novo no banco. O braço do guri estava frio, mas o coração ainda batia. Castiel apertou o volante com força, sentindo a raiva começando a ganhar da vontade de chorar de medo. — Rivergrove tá sentada em cima de um barril de pólvora cheio de dentes. Se eu não planejar direito, amanhã o prefeito vai estar governando uma cidade de defunto murcho. — Eu preciso de sal, preciso de prata, preciso de luz e, principalmente, preciso de um milagre. E como milagre tá em falta, vou ter que fabricar um no soco mesmo. Castiel entrou na cidade a toda, passando direto pelo mercadinho do Valdir sem nem olhar pro lado. Ele precisava levar o Juca pro posto de saúde, mas depois disso, o esconderijo dele ia virar uma oficina de guerra. A caçada ia ser longa, ia dar um trabalho do cão, e ele já conseguia sentir o cansaço nos ossos antes mesmo da briga começar de verdade. — É, Castiel... prepara o lombo. Ou você vira lenda, ou vira comida de sombra. E do jeito que a coisa tá, a segunda opção tá pagando bem melhor na banca de apostas. — Mas que desgraça, eu devia ter escutado minha tia e ido trabalhar no cartório. Lá o máximo que te ataca é um papel grampeado errado. Ele estacionou na frente do posto de saúde e deu um grito que acordou até os cachorros da outra rua, chamando a enfermeira enquanto carregava o Juca pra dentro. A guerra tinha começado de verdade, e ele era o único soldado que sabia onde o inimigo morava. Agora o bicho vai pegar, e eu vou ter que ser mais liso que quiabo no prato se quiser chegar no fim dessa semana com todos os dentes na boca.
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GustavoLuiz
muito bom, arrasou ❤️🫶🏼estou doido para a continuação 🔥🔥
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