O sol de Rivergrove nasceu com aquela preguiça de quem bebeu demais na noite anterior, mas quando os raios bateram no que sobrou da praça central, o susto foi geral. O coreto, que era o xodó da cidade e lugar preferido das pombas e dos namorados, agora parecia um esqueleto de carvão. Tinha papel picado de rojão pra todo lado e um cheiro de enxofre misturado com querosene que dava pra sentir lá na entrada da cidade. O Prefeito Epaminondas desceu do seu Santana preto bufando tanto que parecia uma chaleira velha. Ele estava com um terno marrom que já não fechava direito na barriga e uma cara de quem tinha passado a noite em claro ouvindo os estouros. Logo atrás dele, o Seu Valdir vinha tropeçando nas próprias pernas, tentando esconder o molho de chaves que o Castiel tinha "emprestado" à força. — Mas que barbaridade é essa, Valdir? O coreto sumiu! Onde é que eu vou fazer o meu discurso de inauguração da nova fonte agora? No meio das cinzas? — Calma, prefeito, o Castiel disse que foi por uma boa causa. O bicho das sombras tava lá e o homem resolveu o problema com um pouco de animação pirotécnica. — Um pouco de animação? Valdir, aquele rapaz usou o estoque de fogos do ano novo, do carnaval e do aniversário da cidade tudo de uma vez só! Rivergrove agora tá protegida contra sombras, mas tá falida em entretenimento pelos próximos cinco anos! O prefeito chutou um resto de morteiro que ainda fumegava e olhou em volta, vendo o povo da cidade saindo das casas com cara de quem tinha visto um disco voador pousar no jardim. — Castiel é um vândalo! Um desocupado! Ele não pode sair explodindo o patrimônio público só porque viu um bicho-papão no escuro! Eu vou mandar prender esse sujeito agora mesmo. — Mas prefeito, o gado do Nicanor... as vacas murchas... o senhor não acha que tem algo estranho mesmo? — Estranho é o meu saldo bancário depois que eu tiver que pagar a reforma disso aqui! Onde tá esse infeliz? Eu vou lá na casa dele agora dar um corretivo que ele nunca mais vai querer ver um fósforo na frente. Enquanto o prefeito subia no carro de novo, soltando fumaça pelas orelhas, Castiel já estava bem longe dali. Ele tinha ouvido o Santana do Epaminondas roncando de longe e resolveu que não estava com paciência pra ouvir sermão de político logo cedo. Ele pegou a C10, jogou um facão cego e a espingarda na caçamba e rumou direto pro limite da floresta que cercava a fazenda do Nicanor. Castiel parou a caminhonete onde a estrada de terra acabava e o mato começava a ficar fechado. O ar ali era diferente, mais pesado, como se a floresta tivesse segurando o fôlego. Ele desceu do carro, ajeitou o chapéu e deu um tapa na lateral da porta pra ver se ela fechava direito, mas o trinco só funcionou na terceira tentativa. — Ô caranga velha, colabora aí que o dia hoje vai ser comprido e eu não tô com humor pra ficar trancado pra fora. — Se eu encontrar o bicho e esse carro não pegar na volta, eu juro que vendo ela pro ferro-velho e compro uma bicicleta usada. Ele começou a caminhar mata adentro, seguindo uma intuição que vinha lá do fundo do estômago. Castiel não era nenhum estudioso de bicho estranho, mas ele tinha o faro bom pra saber onde o perigo gostava de se esconder. Onde o mato era mais escuro e o sol não conseguia furar a copa das árvores, era ali que o rastro começava. Não demorou muito pra ele achar algo que fez ele parar na hora. No meio de uma clareira pequena, o capim não estava só pisoteado; ele estava preto. Mas não era queimado de fogo, era uma necrose estranha, como se a vida tivesse sido sugada da terra. E bem no centro, tinha uma pegada. — Mas que diabo de pata é essa? Parece mão de gente, mas com uns dedos que não acabam mais. — O bicho tem o pé maior que o meu azar, credo em cruz. Castiel se agachou, analisando o rastro. A pegada era funda e ao redor dela tinha um visgo preto, uma meleca que brilhava de um jeito esquisito sob a luz que passava pelas folhas. Ele pegou um graveto e cutucou a substância. O graveto começou a chiar e a apodrecer na mesma hora. — É, o bicho é puro veneno. Se encostar na pele, o sujeito vira presunto antes de dizer "uai". — Ainda bem que eu trouxe o facão, se bem que do jeito que ele tá cego, é mais fácil o bicho morrer de tétano do que de corte. Ele continuou seguindo o rastro, que ia se aprofundando na floresta fechada. O cheiro de ferro enferrujado estava de volta, mas agora tinha algo mais doce no meio, um cheiro de fruta podre que dava náusea. Castiel ia devagar, tentando não fazer barulho, o que era difícil já que ele pisava em galho seco a cada dois passos. — Castiel, seu burro, você entra na mata pra caçar sombra e faz mais barulho que uma escola de samba desfilando no asfalto. — Se o monstro não for surdo, ele já sabe até a marca da minha bota. De repente, ele parou de novo. Pendurado num galho baixo, tinha um pedaço de pano. Castiel reconheceu na hora: era um retalho da camisa do Juca, o filho mais novo do Nicanor, que todo mundo dizia que tinha fugido pra cidade grande há dois dias. — Fugiu nada... o coitado virou lanche de sombra. — Ô Juca, você também não ajuda, né, moleque? Tinha que vir justamente pro lugar onde o sol não bate? O rastro de pegadas agora estava misturado com marcas de arrastado, como se algo pesado tivesse sido levado para uma fenda entre duas rochas grandes cobertas de musgo. Castiel sentiu o arrepio de novo, aquele que subia do calcanhar e dava um nó na nuca. Ele checou a munição da espingarda — só tinha mais dois cartuchos de sal e um de chumbo grosso. — É pouca bala pra muita confusão, mas quem não tem cão, caça com gato, e quem não tem granada, vai de cano duplo mesmo. Ele se aproximou da fenda entre as pedras. Era uma entrada de caverna, escura como o fundo de um poço desativado. O visgo preto estava por toda a entrada, escorrendo pelas paredes de pedra como se a própria rocha estivesse sangrando trevas. — "Vem... caçador... o fogo... tá acabando..." — a voz sussurrou lá de dentro, parecendo o barulho de mil baratas se mexendo ao mesmo tempo. — O fogo pode estar acabando, mas o meu mau humor tá só começando, seu projeto de morcego! — Se eu entrar aí e não sair, eu vou assombrar o Epaminondas pelo resto da vida dele, só de raiva pelo coreto. Castiel respirou fundo, limpou o suor da testa com a manga da camisa e deu o primeiro passo para dentro do breu. O frio ali dentro era de rachar o bico, um gelo que não vinha do clima, mas de algo que odiava o calor da vida. Ele não tinha mais os fogos do Valdir, mas tinha um isqueiro Zippo que o pai dele deixou e uma vontade imensa de não morrer naquele buraco. — Vamos lá, Castiel. Mostra pra esse bicho que Rivergrove tem dono e que o dono tá com uma espingarda carregada e muita pressa de ir embora. — Se eu sair dessa vivo, eu juro que vou cobrar do prefeito cada centavo dessa munição, e ainda peço um adicional por insalubridade. Ele avançou mais um pouco, e a luz do dia atrás dele foi ficando pequena, até virar só um pontinho branco num mar de escuridão. O silêncio da caverna só era quebrado pelo som das gotas de água pingando e pelo batimento do coração dele, que parecia uma bateria de escola de samba no meio do peito. Castiel sabia que o rastro terminava ali, e que o que quer que estivesse esperando lá dentro, não estava sozinho. O cheiro de carniça aumentou, e ele sentiu que olhos que não precisavam de luz estavam mirados bem no meio da sua testa. — É agora que o filho chora e a mãe não vê. Ou eu mato essa sombra, ou eu viro parte da mobília desse buraco Ele engatilhou a arma, o som do metal ecoando nas paredes de pedra como um trovão solitário. O jogo estava só começando, e dessa vez, não ia ter fogo de artifício pra salvar a pele dele no último segundo.
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GustavoLuiz
muito bom, arrasou ❤️🫶🏼estou doido para a continuação 🔥🔥
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