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O Brilho da Babilônia

  ​Castiel chegou no pé do morro bufando, com o pulmão reclamando do cigarro que ele nem tinha acendido ainda. A cidade de Rivergrove lá embaixo parecia um presépio mal assombrado, com aquela neblina que mais parecia algodão doce sujo grudado nos telhados. Ele não perdeu tempo e foi direto pro mercadinho do Seu Valdir, que ficava bem na esquina da praça principal. A portinha de ferro fez um barulho de gato espremido quando ele entrou.
​— Seu Valdir! Ô Seu Valdir! Aparece aí antes que eu comece a comer as bolachas de água e sal sem pagar!
​Um senhorzinho de óculos fundo de garrafa e um bigode que parecia uma taturana morta apareceu por trás do balcão, limpando as mãos num pano de prato mais encardido que chão de oficina.
​— Mas que pressa é essa, Castiel? O mundo tá acabando ou você finalmente resolveu pagar os três meses de fiado que tá no caderno?
​Castiel não deu nem um sorriso. Ele foi logo pros fundos, onde ficava a seção de ferragens e utilidades que ninguém comprava.
​— O mundo eu não sei, mas o gado do Nicanor já virou uva passa e o Jiboia virou tapete seco. Escuta, Valdir, eu sei que o prefeito guarda os fogos do Réveillon naquele quartinho que você aluga pra prefeitura. Eu preciso da chave. Agora.
​O velho arregalou os olhos, fazendo os óculos quase pularem do rosto.
​— Tá doido, rapaz? Aquilo é patrimônio público! O prefeito me mata se eu mexer naqueles rojões. E pra que você quer pólvora agora? Vai comemorar o azar alheio?
​— Valdir, meu querido, se eu não levar aqueles foguetes, a única coisa que vai sobrar pra comemorar amanhã é o nosso próprio velório. O bicho que tá lá em cima não gosta de lanterninha de pilha não, ele quer é o sol. E como o sol só volta amanhã, eu vou fabricar um artificial aqui mesmo.
​— Deixa de ser pão-duro, Valdir, se o bicho me pegar eu morro e aí que você não vê a cor do meu dinheiro mesmo. Me dá logo essa chave antes que eu perca a paciência e use meu pé como chave mestra.
​Depois de muita reclamação e promessa de que o Castiel ia capinar o lote do mercado por um mês, o velho entregou um molho de chaves pesadas. Castiel foi pro quartinho e quase caiu pra trás com a quantidade de caixa. Tinha de tudo: morteiro, rojão de vara, busca-pé e umas caixas grandes escritas "Show Pirotécnico Extra Forte".
​— É hoje que o filho chora e a mãe não vê. Se eu não explodir meus próprios dedos, aquele bicho vai virar purpurina de treva.
​— Rapaz, tem pólvora aqui pra mandar Rivergrove pra lua sem escala. Espero que eu saiba o que tô fazendo, senão o churrasco vai ser de caçador.
​Castiel começou a carregar tudo pra caminhonete velha dele, uma C10 que tossia mais que tuberculoso. Ele jogou as caixas na caçamba e passou no corredor de limpeza do mercado, pegando três galões de querosene e um rolo de fita isolante.
​— Vai fazer faxina no inferno, Castiel? — perguntou o Valdir, ainda desconfiado.
​— Quase isso, Valdir. Vou dar um banho de luz num amigo meu que tá muito pálido. Fica trancado aí, e se ouvir um estrondo, não é trovão não, sou eu resolvendo a parada.
​Castiel saiu fritando pneu, o que era difícil praquela caminhonete, mas a adrenalina ajudava. Ele foi pro centro da praça, onde tinha um coreto de madeira velha. O plano era simples na cabeça dele, mas uma desgraça na prática: ele ia espalhar o querosene em volta do coreto, montar uma armadilha com os morteiros apontados pra todos os lados e usar o "brilho" dele como isca.
​— Sou um gênio ou um completo idiota. Acho que a segunda opção tá ganhando de lavada hoje.
​— Se minha mãe me visse agora, ela me dava uma chinelada por brincar com fogo desse jeito, mas antes fogo no coreto do que dente de espinho no meu pescoço.
​Enquanto o sol ia baixando e o céu ficava com aquela cor de goiabada estragada, Castiel trabalhava que nem um condenado. Ele amarrou os rojões nas colunas do coreto, ligando os pavios com fita isolante pra criar uma reação em cadeia. Ele queria que, quando acendesse um, o lugar inteiro virasse uma lâmpada gigante por uns dez minutos.
​A neblina começou a subir, fria e úmida, trazendo aquele cheiro de ferro enferrujado que ele sentiu na fazenda. O silêncio na cidade era de arrepiar; parecia que até os grilos tinham pedido demissão por medo.
​— Aparece, seu carniça! Eu sei que você tá vindo pelo rastro da minha beleza!
​— Que silêncio desgramado, parece que eu tô num enterro e o morto sou eu.
​De repente, ele ouviu. Aquele som de lixa. Shhh... shhh... shhh... Vinha debaixo das tábuas do coreto. As sombras pareciam estar esticando, mesmo sem luz pra projetar. Castiel sentou no meio do coreto, acendeu um cigarro com a mão tremendo e deixou a espingarda do lado, com o isqueiro já engatilhado na outra mão.
​— "Você... trouxe... mais... fogo..."
— a voz sussurrou, saindo do vão entre as madeiras.
​— Trouxe sim, seu projeto de pesadelo. E esse aqui não acaba com um sopro não. Vem buscar, tá aqui no meu peito, ó!
​— Tomara que esse bicho seja fominha, porque o banquete que eu preparei vai ser de estalar o dente.
​Uma mão comprida, cinzenta e sem unhas, só com pontas finas, apareceu na borda do piso. Depois outra. O bicho foi subindo, se desdobrando como se estivesse saindo de dentro de uma mala pequena. Ele era mais alto do que parecia no galpão, e os olhos azuis brilhavam com uma fome que fazia o estômago do Castiel encolher.
​— "O brilho... é forte... em você... mas a sombra... é eterna..."
​— Eterna é a minha dívida com o Valdir, você é só um bicho feio que precisa de um dentista e um banho de sol!
​O monstro deu um passo pra frente, e o cheiro de podre ficou insuportável. Ele abriu aquela boca sem lábios, mostrando as fileiras de dentes que pareciam agulhas de costura. Castiel sentiu o ar esfriar tanto que sua respiração saía como fumaça.
​— Agora ou nunca, Nossa Senhora da Bicicletinha, me dá equilíbrio!
​Castiel jogou o cigarro aceso direto na poça de querosene que ele tinha deixado estrategicamente perto do pavio principal e pulou pra trás, se jogando do coreto direto pro chão de terra.
​— Fogo na babilônia, seu infeliz!
​O fogo subiu num "vrum" que iluminou a praça inteira. O pavio correu como uma cobra de faísca e atingiu a primeira caixa de rojões. O que aconteceu depois foi um inferno de cores e barulho.
CABUM! PÁ! TRÁ-TRÁ-TRÁ!
​Os fogos de artifício começaram a explodir pra dentro do coreto. Eram luzes verdes, vermelhas, brancas e douradas estourando a centímetros do bicho. O monstro soltou um grito que não era de gente nem de bicho, era um som de metal sendo rasgado. A luz intensa fritava a pele de sombra dele, que subia em fumaça preta e fedorenta.
​— Olha o brilho aí, seu desgraçado! Gostou da iluminação? É de graça!
​— Caramba, eu acho que fiquei surdo, mas valeu a pena ver esse bicho dançando no meio dos traques.
​O bicho tentava mergulhar nas sombras, mas não tinha sombra! As explosões vinham de todos os lados, eliminando qualquer ponto escuro no coreto. Ele se contorcia, diminuindo de tamanho, parecendo um pano queimado sendo jogado no vento. Castiel, mesmo caído no chão e com os ouvidos zunindo, pegou a espingarda e mirou no vulto que brilhava sob o efeito da pólvora.
​— Isso é pelo Jiboia, pelas vacas do Nicanor e pelo meu sono de beleza que você estragou!
​Ele disparou os dois canos. O impacto da chumbo, junto com a explosão de um morteiro de doze tiros que estourou na mesma hora, fez a criatura simplesmente desintegrar. Não sobrou nada além de uns pedaços de cinza negra que sumiam antes de tocar o chão.
​Castiel ficou deitado ali, olhando o resto dos fogos subirem pro céu de Rivergrove. O coreto estava em chamas, metade da praça estava cheia de papel picado e o silêncio finalmente voltou, mas agora era um silêncio de paz.
​— É... acho que exagerei um pouquinho na decoração. O prefeito vai me pendurar pelo pescoço quando vir o coreto.
​— Pelo menos eu não virei uva passa. Mas que o Valdir vai me cobrar esse querosene em dobro, ah, isso ele vai.
​Ele se levantou, limpando a terra da calça e sentindo cada músculo do corpo moído. O perigo imediato tinha passado, mas ele sabia que aquelas cinzas negras que o vento levava podiam se juntar de novo em algum lugar. Ele caminhou até a caminhonete, pegou o cantil de água e deu um gole demorado.
​— Amanhã eu me preocupo com o prejuízo. Hoje, eu só quero um banho e uma cama que não tenha sombra embaixo.
​— Se bem que, depois dessa, eu acho que vou dormir de luz acesa por uns cinco anos, só por via das dúvidas.
​Castiel subiu na C10, deu a partida e saiu devagar, enquanto os últimos brilhos dos fogos desapareciam na fumaça. Rivergrove ainda era uma cidade cheia de segredos, mas naquela noite, pelo menos um deles tinha aprendido que brincar com o fogo de um caçador sem juízo era pedir pra virar fumaça.
​— Será que o prefeito vai aceitar a desculpa de "combustão espontânea por invasão alienígena" ou eu já começo a arrumar as malas agora?
​Ele dirigiu pra casa, rindo sozinho da cara que o bicho fez antes de explodir. A vida de caçador não pagava bem, não tinha plano de saúde e o seguro de vida era inexistente, mas a satisfação de mandar um encosto de volta pro inferno com um show de pirotecnia não tinha preço.
​— É, Castiel, você ainda vai acabar num hospício ou num pedestal. Provavelmente no hospício, que tem comida grátis.

Book Comment (44)

  • avatar
    GustavoLuiz

    muito bom, arrasou ❤️🫶🏼estou doido para a continuação 🔥🔥

    2d

      0
  • avatar
    De oliveiramurilo

    amém 🙌🏽🙏🏽

    6d

      0
  • avatar
    KerexuMarcele

    amei 💖

    11d

      0
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