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Sombra no Galpão

  Castiel seguiu pela estrada de terra batida, chutando umas pedrinhas pra ver se espantava a ansiedade. O caminho pra fazenda do Nicanor era ladeado por umas árvores tão altas que a copa delas parecia querer costurar o céu. O cheiro de pinheiro agora tava misturado com um fedor de coisa podre, mas não era carniça normal, era um cheiro químico, tipo ferro enferrujado deixado na chuva.
— Mas que inhaca dos infernos, parece que um caminhão de lixo tombou aqui e ninguém avisou.
— Se o cheiro tá assim aqui fora, não quero nem ver o estado das coitadas das vacas lá dentro.
Quando ele avistou a porteira da fazenda, viu que o negócio tava feio. A madeira, que era forte, tava lascada como se um urso tivesse tentado lixar as unhas ali. O Velho Nicanor tava sentado num toco de madeira, com as mãos enterradas no rosto e uma espingarda de cano duplo atravessada no colo. O homem parecia ter envelhecido dez anos em uma única noite.
— Ô Nicanor! Vim ver que presepada foi essa que andaram contando lá na padaria. É verdade que o gado virou uva passa?
Castiel chegou perto e parou de uma vez quando olhou pro pasto logo atrás da cerca. O que ele viu fez o resto de café no estômago dele querer voltar pra dar um "oi".
Tinha umas dez vacas espalhadas pelo campo. Mas elas não tavam mortas de um jeito comum. Os bichos tavam murchos, a pele grudada no osso de um jeito que parecia vácuo. Não tinha sangue, não tinha corte, só uns furos pequenos, do tamanho de uma moeda, bem na base do crânio.
— Nossa senhora da bicicletinha... o negócio foi feio mesmo, hein, Nicanor?
— Caramba, parece que passaram um aspirador de pó gigante nessas malhadas. Não sobrou nem o berrante.
O Velho Nicanor levantou a cabeça. Os olhos dele tavam vermelhos de choro e de falta de sono.
— Castiel... eu ouvi o barulho de madrugada. Não era bicho da terra, não. Era um som de sucção, tipo quando a gente tá terminando de tomar suco de canudo e chega no fundo do copo. Eu saí com a lanterna e... e eu vi um deles.
O velho começou a tremer tanto que a arma quase escorregou do colo. Castiel se agachou do lado dele, tentando manter a pose de corajoso, mas o frio na barriga tava castigando.
— O que você viu, homem? Desembucha logo que eu não tenho o dia todo pra ficar sentindo esse cheiro de carniça.
— Fala logo antes que eu tenha um treco aqui também, que esse lugar tá mais sinistro que cemitério em noite de lua cheia.
Nicanor deu um suspiro fundo, com a voz falhando.
— Ele era comprido, Castiel. Parecia uma sombra de homem, mas se mexia igual uma aranha. Ele tava em cima da mimosa, a minha melhor vaca. Ele não tava comendo a carne... ele tava com a mão no rosto dela, cobrindo os olhos do bicho. E a vaca tava lá, paralisada, enquanto o brilho dela ia sumindo. Quando ele me viu, ele não correu. Ele deu um sorriso... mas ele não tinha lábio, só aqueles dentes de espinho.
Castiel sentiu um arrepio que começou no dedão do pé e foi parar no último fio de cabelo da nuca. Ele lembrou do bicho que apareceu no quarto dele pedindo "brilho".
— E pra onde essa coisa foi? Eu dei um tiro em um deles ontem, mas o infeliz sumiu na fumaça.
— Se essa coisa der um sorriso desses pra mim, eu infarto antes dele encostar a mão, credo em cruz.
Nicanor apontou pro fundo do pasto, onde tinha um galpão velho de madeira que o povo usava pra guardar feno e ferramenta.
— Ele entrou lá quando o sol começou a querer sair. Eles não gostam da claridade, Castiel. Mas aquele galpão tá escuro como o breu. Eu não tive coragem de entrar. O meu cachorro, o Jiboia, entrou latindo... e não saiu mais.
Castiel olhou pro galpão. A porta tava entreaberta, criando um retângulo negro que parecia um portal pro inferno. Ele apertou a coronha da espingarda e sentiu o suor escorrer pela testa, apesar do frio que fazia.
— Pois eu vou lá. O Jiboia era um bom cachorro, não merece ficar lá dentro com essa aberração.
— Eu sou muito burro mesmo. Podia tá em casa agora tomando um gole, mas não, tenho que vir aqui caçar sombra em depósito de feno.
Castiel foi andando devagarzinho, cada passo fazendo um barulho seco na grama morta. Ele não queria chamar atenção, mas as botas dele pareciam fazer mais barulho que uma escola de samba. Ele chegou na porta do galpão e sentiu um bafo gelado saindo lá de dentro.
Ele acendeu o isqueiro só pra ter uma noção, já que o lampião tinha ficado em casa. A chuvinha de luz do isqueiro revelou pilhas de feno e umas ferramentas penduradas. No fundo, ele viu algo caído. Era o Jiboia. O cachorro tava igual às vacas: seco, com os olhos brancos, sem brilho nenhum.
— Oh, Jiboia... você não merecia isso, amigão.
— Se eu pegar o desgraçado que fez isso com o cachorro, eu vou esquecer que sou cristão por uns dez minutos.
Foi aí que ele ouviu um estalo em cima das vigas do teto. Ele olhou pra cima e o isqueiro apagou. No escuro total, ele viu dois pontos azuis brilhando bem em cima da cabeça dele.
— Mas que pariu... você de novo?
— Danou-se tudo, agora o bicho vai pegar e eu tô sem lanterna.
A coisa pulou de cima da viga. Castiel rolou pro lado, derrubando um monte de ferramenta que fez um barulho de estilhaçar os ouvidos. O bicho caiu de pé, leve como uma pena, e começou a se aproximar, fazendo aquele som de lixa de novo.
"Você... tem muito... fogo dentro..."
— a voz parecia vir de todos os lados do galpão.
— Fogo? Eu tenho é um ódio mortal de bicho feio! Toma aqui o meu fogo, seu encosto!
Castiel disparou a espingarda à queima-roupa. O estrondo dentro do galpão fechado quase deixou ele surdo. O clarão mostrou o bicho sendo jogado contra a parede de madeira, mas dessa vez o monstro não sumiu. Ele soltou um grito agudo que fez as ferramentas vibrarem.
Castiel percebeu que o tiro tinha pegado no ombro do bicho, e em vez de fumaça, tava saindo uma luz negra, como se a própria escuridão estivesse vazando dele.
— Ahá! Então você sangra, né? Se sangra, dá pra matar!
— Agora sim a porca torce o rabo. Vem cá que eu vou te mostrar o brilho do meu cano duplo!
Mas o bicho não se acuou. Ele se esticou todo, ficando com uns três metros de altura, e as mãos dele, com aqueles dedos compridos, começaram a se alongar como sombras projetadas na parede. Ele deu um bote na direção do pescoço do Castiel, e o caçador só teve tempo de usar o cano da arma pra bloquear o ataque.
A força do monstro era absurda. Castiel foi prensado contra um pilar de madeira, sentindo o ar fugir dos pulmões. O rosto daquela coisa tava a centímetros do dele, e ele conseguia ver o vazio onde deviam estar os olhos.
— Sai pra lá, coisa ruim! Eu não tomei banho hoje, o cheiro tá ruim pra você também!
— Caramba, o bicho tem força de um trator. Se eu não sair dessa, o Seu Valdir nunca vai me perdoar a conta que eu deixei pendurada.
Nesse momento, uma luz forte entrou pelo buraco da parede do galpão. Era o sol conseguindo finalmente furar a neblina pesada. O raio de sol pegou bem nas costas do bicho, e a pele dele começou a chiar como se fosse carne na brasa.
O monstro soltou o Castiel e recuou pro fundo do galpão, onde a sombra era mais densa, soltando uns grunhidos de dor que pareciam vidro quebrando.
— É isso, né? O sol dói? Pois fica aí que eu vou abrir umas janelas pra você, seu desgraçado!
— Quem diria que o sol ia ser meu melhor parceiro de caça hoje. Brilha mais, meu filho!
Castiel, com a adrenalina no talo, viu um machado velho encostado num canto. Ele largou a espingarda descarregada, pegou o machado e, em vez de ir pra cima do bicho, começou a dar machadadas nas tábuas da parede que dava pro lado nascente. Cada tábua que ele arrancava, um feixe de luz entrava como se fosse uma espada de fogo.
O bicho tava ficando encurralado. Ele tentava se esconder atrás dos montes de feno, mas o sol tava entrando por todo lado.
— O que foi? Tá com medo de ficar bronzeado? Vem cá dar um oi pro verão de Rivergrove!
— Se eu arrancar mais duas tábuas, esse bicho vai virar churrasco de sombra.
Só que, quando Castiel ia dar a última machadada pra inundar o lugar de luz, o bicho fez algo que ele não esperava. Em vez de fugir, a criatura mergulhou direto no chão, sumindo nas sombras que as próprias ferramentas faziam. Foi como se ele tivesse virado líquido e entrado na terra.
Castiel parou, ofegante, com o machado erguido. O galpão agora tava todo iluminado, mas o bicho tinha sumido. Não tinha rastro, não tinha buraco, só o cheiro de queimado e o corpo do pobre Jiboia no chão.
— Mas que diabo... o bicho virou poça e sumiu no ralo?
— Isso não é coisa de Deus não, o bicho usa o chão de portal. Assim não tem quem ganhe uma briga.
Ele saiu do galpão, tropeçando nos próprios pés e respirando o ar puro de fora. O Velho Nicanor tava lá, de boca aberta, olhando o Castiel todo sujo de poeira e feno.
— Ele... ele morreu? — perguntou o velho.
Castiel limpou o suor da testa e olhou pro sol, que agora brilhava forte, mas ele sentia que o calor não chegava na alma dele.
— Morreu nada, Nicanor. Ele se escondeu. Esses bichos... eles não são só espíritos. Eles são a própria sombra. E enquanto tiver um cantinho escuro nesse vale, eles vão estar lá.
— O negócio tá pior do que eu pensava. Se o bicho vira sombra, como é que eu vou dar um tiro nele hoje à noite?
Castiel olhou pra cidade lá embaixo. Ele sabia que o ataque na fazenda era só o começo. Os Sedentos de Escuridão não tavam mais com fome de vaca, eles tavam com sede de algo maior. E Rivergrove, com toda aquela neblina e segredo, era o banquete perfeito.
— Nicanor, pega tuas coisas e vai pro centro. Fica perto do povo, na claridade. Eu vou ter que fazer umas compras diferentes no mercadinho do Valdir.
— Se eu não achar um jeito de iluminar essa cidade inteira, hoje à noite o
bicho vai comer gente em vez de gado.
Castiel começou a descer o morro. Ele tinha um plano, mas envolvia muita gambiarra, um bocado de pólvora e, possivelmente, invadir o estoque de fogos de artifício que o prefeito guardava pro ano novo.

Book Comment (44)

  • avatar
    GustavoLuiz

    muito bom, arrasou ❤️🫶🏼estou doido para a continuação 🔥🔥

    3d

      0
  • avatar
    De oliveiramurilo

    amém 🙌🏽🙏🏽

    7d

      0
  • avatar
    KerexuMarcele

    amei 💖

    11d

      0
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