Castiel passou o resto da madrugada com o olho que nem de coruja: arregalado e virando pra todo lado que desse um estalo. Ele não pregou o olho nem por um decreto. Cada vez que uma telha rangia lá em cima, ele levantava o cano da espingarda e soltava um xingamento baixinho. O bicho que tinha batido no telhado parecia ter o peso de um bezerro, mas depois do estrondo, ficou um silêncio de velório que só era quebrado pelo tique-taque do relógio de parede que insistia em funcionar. — Se esse bicho quebrar minhas telha de amianto, eu vou cobrar o conserto no quinto dos infernos. — Tomara que a estrutura segure, porque se esse teto desaba, eu vou virar patê de caçador antes da hora. Quando os primeiros raios de sol começaram a lutar contra aquela neblina persistente de Rivergrove, Castiel finalmente sentiu que o perigo tinha dado uma trégua. Ele se levantou com as juntas estalando igual pipoca, guardou a espingarda no lugar de sempre — atrás da porta, pra facilitar o serviço — e foi lavar o rosto. A água tava tão gelada que ele sentiu o cérebro dar um solavanco — Ô vida de cão, nem no meu rancho eu tenho paz. — Parece que eu fumei um quilo de fumo estragado, minha cabeça tá girando mais que carrossel de feira. Ele abriu a porta com cautela, meio esperando que uma daquelas sombras pulasse no pescoço dele, mas o que ele viu foi só o rastro da destruição da noite anterior. Tinha marca de garra na madeira da porta, e no chão, a gosma preta tinha secado, virando uma crosta que parecia cinza de cigarro misturada com óleo de motor. Ele olhou pro telhado e viu que uma parte da calha tava toda retorcida, como se algo tivesse se segurado ali com muita força. — Mas que desgraça! O conserto disso vai custar um olho da cara. — Se eu pegar esse tal de Sede de Escuro, eu faço ele trabalhar de servente de pedreiro pra pagar o prejuízo. Castiel não era homem de ficar guardando susto pra si. Ele precisava de café, de gente e de informação. Ele calçou as botas — dessa vez amarrando os cadarços com três nós pra não ter perigo de tropeçar se precisasse correr — e marchou em direção ao centro da cidade. O movimento em Rivergrove tava esquisito. Geralmente, o povo tava na rua jogando conversa fora, mas hoje as janelas tavam quase todas fechadas, e quem tava na calçada andava rápido, olhando por cima do ombro. Ele chegou na padaria do Seu Manoel, que era o quartel-general da fofoca e do pão de queijo quentinho. Ao entrar, o sininho da porta tocou e todo mundo parou de falar na hora. O cheiro de café passado tava bom, mas o clima tava mais pesado que saco de cimento. No balcão, o Beto tava com uma cara de quem tinha visto o próprio enterro, segurando uma caneca com as mãos tremendo tanto que o café espirrava pra fora. — Ô de casa! Que que deu nesse povo hoje? Parece que todo mundo comeu farinha com veneno — disse Castiel, sentando num banco alto e batendo o chapéu no joelho pra tirar o pó. — E aí, Beto? Sobreviveu à bronca da patroa ou a assombração te pegou no caminho? Beto olhou pro Castiel com uns olhos que pareciam duas bolas de gude de tanto pavor. — Castiel, tu não sabe da missa a metade, homem! O gado do Velho Nicanor... apareceu tudo seco hoje cedo. Não tinha uma gota de sangue no pasto, parecia que tinham sugado até a alma das vacas. Castiel sentiu o estômago dar um nó, mas não ia dar o braço a torcer na frente do povo. — Vaca seca? Isso aí deve ser coisa de bicho do mato, uma onça faminta ou algum lobo perdido. Deixa de ser frouxo, Beto. — Pelo amor de Deus, se o bicho sga sangue de vaca, ele vai querer o que com o meu estoque de cachaça? Seu Manoel, atrás do balcão, limpava um copo com um pano encardido e balançava a cabeça negativamente. — Não foi onça não, Castiel. Eu vi as fotos. Tem marca de mão nas carcaças. Mão de gente, mas com dedo comprido demais. O povo tá dizendo que os Sedentos de Escuridão cansaram de ficar só na floresta. Eles tão entrando na cidade. Castiel deu um gole longo no café amargo que o Manoel serviu. O calor do líquido desceu queimando, mas ele ainda sentia o frio da madrugada nos ossos. — Pois eu digo uma coisa pra vocês um desses infelizes tentou entrar na minha casa ontem à noite. Levou um balaço de chumbo pra aprender a não mexer com quem tá quieto. — O povo aqui se borra de medo, mas ninguém levanta a bunda da cadeira pra resolver o problema. A padaria toda ficou em silêncio. Um senhor de idade, que tava sentado no canto fumando um palheiro, soltou uma fumaça azulada e falou com a voz rouca — Chumbo não mata o que já tá morto, Castiel. Tu só deixou ele bravo. Eles não querem carne, eles querem a luz. E tu, com essa tua teimosia, brilha mais que muita gente por aqui. Toma cuidado, rapaz. Castiel deu uma risada forçada, mas por dentro ele tava lembrando da marca de mão no seu tapete e do jeito que o tiro atravessou o bicho sem fazer ele cair. — Ô vô, luz eu só tenho a do lampião, e olhe lá que o querosene tá caro! Se eles querem brilho, que vão pro centro de Portland ver os letreiro de neon. — Esse velho tá querendo me botar medo, mas ele não sabe que eu sou mais ruim que o próprio capeta quando me tiram o sono. Ele terminou o café, deixou umas moedas no balcão e se levantou. Ele tinha decidido que não ia ficar esperando o bicho voltar na noite seguinte. Ele ia atrás do tal Nicanor pra ver essas vacas de perto. Se tinha marca de mão, tinha rastro. E se tinha rastro, o Castiel sabia caçar. — Manoel, bota dois pão de queijo aí no saco que eu vou ver essa carnificina de perto. Beto, vai pra casa cuidar das tuas galinhas antes que elas virem passarinho frito de sombra. — Esse povo de Rivergrove fala muito e faz pouco. Se depender deles, a sombra come a cidade inteira e eles ainda vão estar discutindo o preço do trigo. Saindo da padaria, o vento deu uma lufada fria, e Castiel sentiu que tinha alguém olhando pra ele de cima do telhado do armazém. Ele não olhou pra cima. Ele sabia que se olhasse e visse aqueles olhos azuis de novo, ele ia perder a coragem de seguir em frente. Ele caminhou em direção à fazenda do Nicanor, que ficava bem na fronteira onde a civilização se entregava pro mato fechado. O mato parecia estar mais verde, mais vivo, como se estivesse se alimentando de algo que não era desse mundo. — Se o bicho quer brincar de esconde-esconde, ele escolheu o caçador errado. — Ô lugarzinho pra ter problema, viu? Se eu soubesse, tinha ido morar no deserto, lá pelo menos o sol não deixa essas porcaria crescer.
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GustavoLuiz
muito bom, arrasou ❤️🫶🏼estou doido para a continuação 🔥🔥
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