O barulho de unhada na porta era de dar arrepio até em estátua, mas o Castiel tava num sono tão pesado que parecia ter sido atingido por uma marreta. Ele roncava num ritmo que mais parecia um motor de trator velho tentando pegar no tranco em dia de geada. Lá fora, a neblina de Rivergrove tinha virado um caldo grosso, daqueles que você estica a mão e não enxerga nem a ponta do nariz. O tal "arranhão" deu lugar a uma batida seca. Pof. Pof. Pof. Castiel deu uma mexidinha, coçou a barriga por cima da camisa de flanela e soltou um murmúrio que nem ele entenderia se tivesse acordado. — Deixa o leiteiro aí no degrau, dona Maria... — resmungou ele, virando pro lado e babando um pouco no travesseiro de pena. — Ô barulheira desgraçada, parece que tem um bando de guaxinim fazendo rave no meu quintal — pensou ele, num flash de consciência que durou meio segundo antes de apagar de novo. Só que a coisa do lado de fora não era um bixo qualquer. A fechadura da porta começou a dar uns estalos, como se o frio tivesse dentes e tivesse tentando mastigar o metal. O ar dentro do quarto ficou tão gelado que o bafo do Castiel começou a sair branquinho, igual fumaça de chaminé. De repente, um estrondo. A janela do quarto, que já tava com o trinco capengo, abriu de uma vez com o vento. O frio entrou dando voadora em tudo, derrubando o copo d’água que tava no criado-mudo e molhando o chão todo. Castiel deu um pulo da cama que quase bateu a cabeça no teto. Ele tava com o coração saindo pela boca, tentando entender se ainda tava sonhando com a cachaça do Seu Juca ou se o mundo tava caindo. — Mas que raio de ventania é essa que não respeita nem o descanso do guerreiro? — Caramba, achei que o teto tinha desabado na minha moleira, que susto do cão! Ele se levantou todo atrapalhado, tateando o escuro atrás do lampião. O vento tava uivando lá dentro, fazendo as cortinas de saco de estopa voarem pra todo lado. Quando ele finalmente achou um fósforo e riscou na caixa, a luzinha amarela revelou que a janela não tinha só aberto: o trinco tava retorcido, como se uma mão de ferro tivesse puxado o negócio pra fora. Castiel engoliu em seco. Aquele cheiro de coisa velha e terra molhada que ele sentiu na mata agora tava impregnado dentro do quarto — Ô lá em casa, se for o Beto querendo mais um gole, eu juro que dou um tiro de sal na bunda dele pra ele aprender a ter bons modos! — Credo, que cheiro de bicho morto é esse? Parece que um gambá entrou no meu guarda-roupa e resolveu bater as botas lá dentro Ele pegou a espingarda que ficava encostada no canto da parede. O metal tava frio de doer, mas era a única coisa que dava um conforto pro caboclo naquela hora. Ele foi andando devagarzinho pro meio da sala, com o lampião numa mão e a arma na outra, tentando não escorregar nas poças de água da chuva que tava começando a entrar. Quando ele chegou na sala, viu que a porta da frente tava encostada, mas não fechada. E o pior: tinha uma marca de lama preta, uma gosma estranha, bem no meio do tapete que ele tinha ganhado da tia avó. — Ah não, meu tapete novo não! O bicho pode ser assombração, mas é uma assombração sem educação nenhuma, pelo amor de Deus. — Se eu pegar o infeliz que tá sujando minha casa, vai ver que a Sede de Escuro dele vai virar Sede de Chumbo rapidinho Castiel se aproximou da porta e espiou pela fresta. A neblina lá fora tava pulsando. Não era um movimento de vento normal, era como se o escuro estivesse respirando. Ele viu um vulto passar correndo perto do poço, algo alto, magro demais pra ser gente, com uns braços que pareciam galhos secos. O caboclo sentiu um calafrio subir pela espinha, mas a teimosia dele era maior que o medo. Ele abriu a porta de vez, soltando um rangido que acordaria até defunto. — Aparece aí, seu sem-vergonha! Vem encarar o Castiel homem a homem, ou sombra a sombra, sei lá que diabo de bicho você é! — Tomara que não seja o cobrador do banco, porque se for, eu prefiro enfrentar o monstro da floresta mesmo. O silêncio que veio depois foi de matar. Nem os grilos tavam cantando mais. Castiel deu um passo pra fora, sentindo a grama úmida nos pés descalços ele tinha esquecido de calçar as botas de novo na pressa. O chão tava gelado, mas ele nem ligou. Ele queria ver o que era aquela presepada de luz e sombra que tava tirando o sossego de Rivergrove Foi aí que ele ouviu um sussurro que parecia vir de dentro da própria cabeça dele. Era uma voz fanhosa, arrastada, que parecia o som de lixa passando em madeira podre. "Brilho... queremos o brilho..." Castiel deu uma cuspida pro lado e apertou a espingarda contra o ombro — Brilho o quê, rapaz? Vai trabalhar! Se quiser brilho, vai lustrar prataria na casa do prefeito, aqui só tem poeira e resto de café! — Esse bicho tá achando que eu sou vaga-lume por acaso? Cada uma que me aparece De repente, dois olhos brilharam no meio da mata, bem na beira da cerca dele. Mas não eram olhos de bicho, eram dois buracos de luz azulada e fria, que pareciam sugar toda a claridade do lampião que o Castiel tava segurando. A chama do lampião começou a diminuir, ficando cada vez mais fraquinha, como se estivesse com medo. O vulto saiu da sombra Era feio de doer, Parecia um homem que tinha sido esticado numa prensa, com a pele cinzenta grudada nos ossos e sem nariz, só dois buracos. Ele não tinha dentes, tinha umas presas pretas que pareciam espinhos de roseira. Castiel não pensou duas vezes. Ele não era homem de muita conversa quando o assunto era bicho estranho querendo invadir o terreno alheio. — Ó, eu avisei que não era pra vir com gracinha. Agora aguenta as consequências do seu ato ilícito, ô coisa ruim! BUM! O tiro da espingarda ecoou pelo vale todo, fazendo os passarinhos acordarem em pânico. O clarão do disparo iluminou tudo por um segundo, e Castiel viu o bicho ser jogado pra trás, mas não caiu sangue. Saiu uma fumaça preta que cheirava a pneu queimado. O bicho deu um guincho que parecia o som de metal batendo em metal e sumiu no meio das árvores como se nunca tivesse estado ali. Castiel ficou lá, parado, com o cano da arma fumegando e uma cara de quem não tava acreditando na audácia da criatura. — Ih, o bicho peidou na farofa e sumiu? Achei que o Sede de Escuro era mais valente. — Mas que coisa esquisita, o tiro atravessou o infeliz e ele virou fumaça. Devo estar ficando doido mesmo, ou a cachaça do Seu Juca tá vindo com alucinógeno. Ele voltou pra dentro, trancou a porta com tudo o que tinha direito — corrente, tramela e até uma cadeira encostada na maçaneta. O coração ainda tava a mil por hora, mas a adrenalina tava dando lugar pra uma raiva danada de ter perdido o sono. Ele sentou na poltrona, ainda segurando a espingarda, e ficou olhando fixo pra porta. O lampião finalmente apagou de vez, deixando ele no breu total. — Se essa porcaria voltar, eu vou ter que carregar a munição com sal grosso e alho, igual minha vó dizia que matava coisa ruim. — Agora eu quero ver quem é que vai conseguir dormir com o cheiro de enxofre que ficou nesse quarto. Amanhã eu vou ter uma conversa séria com o Seu Valdir sobre essas lendas, porque o negócio tá ficando esquisito demais pro meu gosto. Castiel ficou ali, vigiando o escuro, sem saber que na fresta da janela, um daqueles dedos longos e cinzentos ainda estava pendurado, tentando achar um jeito de entrar de novo. A noite em Rivergrove tava só começando, e o Castiel percebeu que, dessa vez, não ia ter gole de cachaça que fizesse ele esquecer o que viu na beira da mata. — É, meu filho, o bicho vai pegar e não vai ser pouco não. — Tomara que essas sombras não saibam onde eu guardo o estoque de fumo, senão aí a briga vai ser feia de verdade. Ele fechou os olhos por um segundo, mas abriu logo em seguida quando ouviu um barulho de algo pesado batendo no telhado. A casa rangeu toda, e o Castiel sentiu que, lá fora, tinha muito mais do que só um desses espíritos esperando o sol baixar.
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GustavoLuiz
muito bom, arrasou ❤️🫶🏼estou doido para a continuação 🔥🔥
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