Rivergrove, no Oregon, não era bem o que você chamaria de lugar turístico. Se você caísse lá por engano, ia dar de cara com uma neblina que parecia um cobertor de lã molhada e um cheiro constante de pinheiro com terra úmida. A cidade era um ovo todo mundo se conhecia e o assunto favorito no balcão da padaria não era o preço do pão, mas sim o que diabos andava rondando as florestas ali em volta. Muita gente jurava de pé junto que a cidade tava amaldiçoada. Diziam que, antigamente, algo muito ruim tinha se instalado nas raízes das árvores gigantescas que cercavam o vale. O povo chamava essas coisas de Sedentos de Escuridão. Segundo os antigos, eram espíritos que não queriam luz, nem paz, nem reza brava eles queriam apenas consumir o brilho dos olhos de quem desse o azar de se perder na mata depois que o sol se punha. Tinha quem desse risada, claro. Os jovens que queriam fugir pra Portland achavam que era papo de velho gagá. Mas o clima no ar não mentia. Era pesado, tipo quando a gente sente que tem alguém olhando pra nossa nuca. No meio dessa confusão de lendas e neblina, vivia o Castiel. O cara era uma figura. Se você olhasse de longe, ele parecia um bicho do mato, sempre com aquela bota suja de barro e uma jaqueta de flanela que já tinha visto dias melhores. Mas, se chegasse perto, via que o sujeito tinha um coração de ouro, apesar de preferir a companhia dos bichos do mato do que de muita gente faladeira. Castiel acordou naquele dia com o sol tentando furar a névoa, sem muito sucesso. Ele sentou na beira da cama, coçou a barba rala e soltou um bocejo que quase deslocou o maxilar. Ele tateou o criado-mudo atrás de um copo d'água, sentindo a garganta seca como o deserto. — Caramba, parece que passou um caminhão por cima de mim. — Tomara que não seja a idade chegando, senão eu tô lascado. Ele se levantou, calçou as botas sem nem amarrar direito e foi pra cozinha. O café tava preto e forte, do jeito que ele gostava, mas o que ele queria mesmo era dar uma conferida no seu estoque especial. Ele abriu o armário e deu um sorrisinho quando viu a garrafa de cachaça artesanal que tinha comprado do Seu Juca na semana passada. — É cedo? É. Mas quem sou eu pra julgar o destino? — Só um golinho pra matar o bicho geográfico que tá roendo minhas entranhas. Depois de um café reforçado, Castiel pegou seu equipamento de caça. Ele não caçava por esporte, era mais um estilo de vida. O mato era o lugar onde ele se sentia em casa. Enquanto caminhava pelas ruas de terra de Rivergrove em direção à trilha, ele passou pelo mercadinho do seu Valdir. O dono do mercado tava lá fora, varrendo a calçada com uma cara de quem não dormiu direito. — E aí, Castiel! Vai atrás de quê hoje? Cuidado praqueles bicho de sombra não te pegarem, hein! Castiel parou, ajeitou o chapéu e deu um sorrisinho de canto de boca pro velho. — Fala, Valdir! Deixa de ser medroso, homem. Se eu encontrar um Sede de Escuro desses, eu ofereço um gole da minha cachaça pra ver se ele vira gente. Mas ó, fica de olho aí, que o tempo tá virando. — Esse velho não aguenta ver uma sombra que já quer se benzer todo. Castiel seguiu seu caminho. Ele adorava essas histórias macabras. Enquanto a maioria do povo tinha medo, ele tinha curiosidade. Pra ele, o mundo não era só o que a gente via na luz do dia. Tinha algo mais, algo escondido no vácuo entre as árvores. Ele entrou na trilha e o som da cidade foi sumindo, dando lugar ao barulho do mato. Ele passou a tarde na mata. O silêncio lá era diferente, era um silêncio que parecia estar te ouvindo. Ele conseguiu rastrear alguns rastros de veado, mas nada de muito interessante. O sol começou a baixar, pintando o céu de um roxo meio estranho, quase cor de hematoma. Castiel parou debaixo de um carvalho imenso e sentiu um calafrio que não era por causa do vento. — Tá ficando feio o negócio. Melhor eu dar no pé antes que a patroa escuridão chegue pra jantar. — Credo, parece que as árvores tão querendo fechar o caminho em cima de mim. Na volta pra casa, ele passou pelo bar do centro só pra ver o movimento. O lugar tava cheio de gente comentando sobre umas luzes estranhas que apareceram perto do riacho. Castiel ficou no canto dele, só ouvindo, bebericando mais uma dose daquela cachaça braba que descia queimando tudo e limpando a alma. — O povo fala demais, mas ninguém tem coragem de ir lá ver. Bando de frouxo. — Se eu fosse lá com a minha espingarda, garanto que essa luz sumia rapidinho. Um conhecido dele, o Beto, chegou perto da mesa tropeçando nas próprias pernas e com os olhos esbugalhados. — Ô Castiel, tu que é o corajoso, tu acredita mesmo que essas sombras aí comem a alma da gente? Castiel deu uma risada curta e balançou a cabeça pro amigo embriagado. — Ô Beto, a única coisa comendo a tua alma agora é essa cerveja barata, sô. Vai pra casa antes que a tua mulher te pegue de pau e aí sim tu vai ver o que é assombração! — Esse aí se ver um gato preto no escuro tem um enfarto fulminante. Beto saiu resmungando e Castiel ficou pensativo. Ele sentia isso também. Era uma pressão no ar, como se a noite estivesse pesada demais, como se a escuridão tivesse peso físico. Ele terminou sua dose, pagou o balcão com um aceno e saiu. — Tá sim, Beto. Vai logo. — O ar tá com cheiro de coisa velha, coisa que devia estar enterrada. Ele caminhou até sua pequena cabana na beira da floresta. O caminho tava deserto. O único som era o das suas botas esmagando as folhas secas. De vez em quando, ele parava e olhava pra trás. Tinha a sensação de que as sombras entre as árvores estavam se esticando, tentando tocar seus calcanhares como dedos longos e frios. Ao chegar em casa, ele trancou a porta. Não por medo, mas por costume de quem sabe que o mato não brinca em serviço. Acendeu um lampião de querosene, já que a luz elétrica em Rivergrove vivia dando pau, e sentou na sua poltrona velha de couro que já tinha o formato do corpo dele. — É, meu velho, hoje o bicho tá pegando lá fora. — Se eu ouvir algum barulho estranho, vai ser na base do chumbo e depois eu pergunto o nome. Ele pegou a garrafa de cachaça uma última vez, deu um gole generoso pra relaxar os nervos e sentiu o corpo pesar. O cansaço da caminhada e o efeito do álcool começaram a vencer a curiosidade. O mundo lá fora podia estar acabando em sombra, mas o sono dele era sagrado. Castiel se levantou, cambaleando levemente, e foi pro quarto. Ele jogou as botas num canto, nem se deu ao trabalho de tirar a calça, e se jogou no colchão que cheirava a mofo e sabão em pó. O vento lá fora bateu forte contra as tábuas da parede, fazendo a casa ranger como se tivesse vida. — Se algum espírito quiser me levar hoje, vai ter que me carregar no colo, porque eu não levanto nem por um decreto. — Que barulheira da gota, deixa eu dormir em paz, sombra maldita. Lá fora, o vento começou a uivar entre as frestas da janela de madeira. Um som baixo, como se fosse um sussurro, parecia chamar o nome dele vindo do meio da mata escura. Mas Castiel já estava roncando, mergulhado num sono profundo, sem saber que a tal Sede de Escuro estava mais perto do que ele imaginava. Ele apagou a última vela com um sopro fraco antes de cair no apagão total da consciência. — Amanhã eu vejo o que é. Amanhã — Se eu não acordar, pelo menos morri dormindo e bem calibrado O silêncio da casa foi quebrado apenas pelo estalar da madeira velha e pelo som de algo arranhando levemente a porta do lado de fora.
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GustavoLuiz
muito bom, arrasou ❤️🫶🏼estou doido para a continuação 🔥🔥
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