A capela era pequena, mas o silêncio lá dentro era tão denso que parecia que a gente tinha sido embrulhada em algodão. O contraste era bizarro: lá fora, o mundo estava acabando em água salgada e gritos de bicho ruim, e aqui dentro nem a poeira se mexia se a gente não soprasse. A Bia estava sentada num banco de madeira todo roído por cupim, com as mãos nos joelhos, tentando fazer o pulmão voltar a funcionar direito. — Ô Helena, na moral... se alguém me contasse que eu ia passar o sábado fugindo de tsunami fantasma pra me esconder numa igreja caindo aos pedaços, eu ia mandar a pessoa se tratar. — Bia soltou o ar com força, limpando o suor da testa. — Que vibe pesada, mano. — Pelo menos a gente tá viva, Bia. Olha pelo lado positivo: tu não vai precisar pagar aquela multa de trânsito que ia levar se o guarda te visse voando na estrada. — Helena tentou dar uma animada, mas a voz dela ainda estava meio trêmula. Ela se virou para o Caio. Ele estava ali, sentado no degrau do altar, parecendo um pouco mais "inteiro". A luz que vinha do vitral quebrado batia no rosto dele e, por um segundo, a Helena esqueceu que ele era um fantasma. Ele parecia só um cara muito bonito e muito cansado. — ...vocês mandaram bem... — Caio falou, e a voz dele agora não precisava de rádio nem de pensamento, ela simplesmente preenchia o espaço. — ...a Correnteza tá lá fora, mas ela é burra. Ela só entende o que é fluidez. Onde o concreto e a fé se misturam, ela perde o rastro. — Tá, mas a gente não pode morar aqui pra sempre, né, bonitão? — Bia se levantou, batendo na calça pra tirar o pó. — Minha mãe vai achar que eu fui sequestrada e a Helena tem relatório pra entregar pro Sr. Jorge na segunda. Como é que faz? Caio se levantou também. Ele começou a caminhar pela capela, mas o jeito que ele andava era estranho. Ele não olhava pras imagens de santos nem pro teto. Ele olhava pro chão, pras juntas das pedras, como se estivesse lendo uma planta invisível. — ...eu projetei a reforma desse lugar quando ainda estava no escritório de arquitetura... — ele murmurou, passando a mão (que atravessava a matéria) por uma coluna de granito. — ...o cliente queria um memorial, mas eu descobri algo nas escrituras antigas. Essa capela não foi construída só por religião. Ela foi feita em cima de uma falha geológica que o mar sempre tentou invadir. — Geologia agora? — Helena se aproximou, curiosa. — O que isso tem a ver com tu estar preso? — ...tem a ver que eu não morri por acaso, Helena. No dia daquela tempestade, eu vim aqui. Eu senti que tinha algo errado com a fundação. O mar não queria só derrubar o farol, ele queria retomar o que essa capela "trancou" há séculos. Eu caí na água tentando salvar as plantas originais desse lugar. Caio parou na frente de uma placa de bronze toda oxidada, escondida atrás de um confessionário velho que fedia a mofo. — ...Bia, me ajuda aqui. Atrás desse móvel. Tem uma alavanca de ferro ou algo assim. Eu não consigo fazer força física o suficiente aqui. As duas se entreolharam. A Bia fez uma careta, mas foi lá. — Se sair uma barata ou uma cobra daqui de dentro, Helena, eu te mato. — Bia resmungou, segurando a borda do confessionário. — No três, vai! Um, dois... e três! Elas empurraram o móvel pesado. O barulho de madeira arrastando no chão de pedra foi de arrepiar a espinha. Atrás dele, não tinha barata, mas tinha um painel de ferro com o desenho de um compasso e um esquadro — o símbolo dos arquitetos, mas de um jeito bem antigo. — Eita, o código Da Vinci da Ponta da Areia! — Bia brincou, mas dava pra ver que ela estava impressionada. — E agora, aperta o quê? — ...o centro do círculo... — orientou Caio, os olhos dele brilhando num azul intenso. — ...precisa de sangue vivo. Só um pouquinho. É um selo de linhagem ou de... intenção. Helena não pensou duas vezes. Ela viu um preguinho torto na lateral do painel e pressionou o polegar ali até sentir a picada. Uma gota de sangue caiu bem no meio do círculo de ferro. O chão tremeu. Não foi um tremor de terremoto, foi mais como se uma engrenagem imensa, que estava enferrujada há cem anos, desse o primeiro giro. Uma parte do piso, logo abaixo do altar, deslizou para o lado, revelando uma escada em espiral que descia para a escuridão. — Ah, pronto! — Bia colocou as mãos na cintura. — Agora a gente desce pro porão do filme de terror? É isso mesmo, produção? — ...não é um porão... — Caio olhou para Helena com uma intensidade que fez as bochechas dela queimarem. — ...é onde as respostas estão. E é onde o mar não pode me tocar. Helena pegou o celular, ligou a lanterna e olhou pra escada. O ar que vinha lá de baixo era seco e tinha cheiro de pergaminho antigo. — Vamo lá, Bia. Se a gente chegou até aqui, não vai ser uma escadinha que vai parar a gente. — Helena deu o primeiro passo. — Tu é muito doida, Helena. Mas se tu for, eu vou também. Só não me solta que eu tô morrendo de medo desse escuro. — Bia agarrou na blusa da Helena. Elas desceram. A escada era estreita e o silêncio era interrompido apenas pelo som dos tênis delas batendo no metal. Quando chegaram no fundo, a lanterna do celular revelou uma sala que parecia um escritório parado no tempo. Tinha mesas de madeira maciça, mapas enrolados e... o mais incrível: uma maquete de vidro imensa, representando toda a orla da cidade. — Caraca... — Helena passou a luz pela sala. — Isso aqui é incrível. Caio, o que é isso? O vulto do Caio se materializou no centro da sala. Ele parecia estar em casa. — ...este é o coração do projeto "Âncora"... — ele explicou, e a imagem dele ficou tão sólida que a Helena quase tentou tocar nele. — ...antigos arquitetos sabiam que o mar nesta região não é comum. Existe uma força aqui, algo que os antigos chamavam de 'Leviatã Adormecido'. A cidade foi construída pra servir de barreira. E essa sala... ela controla as comportas energéticas. — Peraí, "comportas energéticas"? — Bia cruzou os braços. — Tu tá me dizendo que a gente mora em cima de um ralo de monstro marinho e o controle remoto tá aqui nesse porão? — ...basicamente, sim. — Caio deu um sorriso triste. — ...e eu descobri que a minha morte foi planejada. Eu estava chegando perto demais da verdade. Alguém queria que o mar levasse a cidade, Helena. Alguém sabotou o projeto Âncora pra que a Correnteza pudesse entrar. Helena sentiu um calafrio. — Quem, Caio? Quem ia querer destruir a própria cidade? Caio apontou para um quadro na parede. Era uma foto antiga, de um grupo de homens de terno, comemorando a construção do farol. No centro, segurando uma taça de champanhe, estava um rosto que Helena reconheceu na hora. — Não pode ser... — Helena deu um passo atrás, quase derrubando o celular. — Esse é o avô do Sr. Jorge! O dono da agência onde a gente trabalha! — Eita ferro! — Bia soltou um palavrão. — Então a gente trabalha pro herdeiro do apocalipse marinho? Que maravilha de currículo, hein! — ...não é só o avô dele... — Caio se aproximou da maquete de vidro. — ...o projeto ainda está ativo. O Jorge sabe. Ele usa a agência pra monitorar o nível da água. Por isso ele é tão obcecado com aqueles relatórios de "clima" que vocês fazem. Ele não tá vendo se vai chover, Helena. Ele tá vendo quando a barreira vai finalmente quebrar. A ficha caiu pra Helena com um estrondo. Todo o mau humor do chefe, a obsessão por detalhes bobos, a pressa em entregar as campanhas... tudo era fachada. — Então, se a gente tá aqui... ele já deve saber. — Helena olhou pro teto, sentindo que as paredes estavam se fechando. — ...exato. — Caio confirmou. — ...mas agora que vocês encontraram a sala, a gente tem o trunfo. Se a gente reativar o selo do farol, a Correnteza é puxada de volta pro abismo e eu... eu posso finalmente ter uma chance de voltar. — Voltar? Como assim voltar? — Helena sentiu uma ponta de esperança que doía. — Tu pode ficar vivo de novo? Caio hesitou. A imagem dele oscilou de novo. — ...não sei se "vivo" como antes... mas eu posso deixar de ser um rastro de sal. Eu posso ter uma voz que todos ouvem. Eu posso te tocar, Helena. Helena sentiu as lágrimas virem. A ideia de poder sentir a mão do Caio, de poder abraçar ele sem que o ar ficasse gelado, era tudo que ela queria. — Então a gente vai fazer isso. — ela disse, com uma determinação que assustou até a Bia. — O que a gente precisa fazer? — ...precisamos das chaves de cristal que foram escondidas na fundação... — Caio começou a explicar, mas ele parou de repente. Um barulho veio de cima. Um barulho de motor. Vários motores. Bia correu até a escada e olhou pra cima. — Helena! Tem luzes lá fora! Carros pretos! — ela gritou, descendo as escadas correndo. — O Sr. Jorge chegou, e ele não veio pra trazer o café da tarde não! — Merda! — Helena olhou pro Caio. — E agora? — ...bloqueiem a porta da escada! — Caio ordenou. — ...eu vou tentar segurar o sistema daqui de baixo. Helena, pega aquele mapa em cima da mesa! É o mapa das chaves! Se eles pegarem a gente, o mapa não pode cair na mão deles! Helena voou pra mesa, pegou o pergaminho e enfiou por dentro da blusa. O coração dela batia tão rápido que ela achou que ia desmaiar. — Bia, me ajuda com essa estante! — Helena apontou pra um móvel de ferro cheio de livros pesados. As duas, usando cada gota de força que tinham, empurraram a estante na frente da escada espiral. No momento em que terminaram, ouviram o som da porta da capela lá em cima ser arrombada com força. — Helena? Beatriz? — A voz do Sr. Jorge ecoou, mas não era a voz irritadiça do escritório. Era uma voz fria, metálica, que dava medo até de respirar. — Eu sei que vocês estão aí embaixo. Saiam agora e a gente conversa como bons colegas de trabalho. O Caio sempre foi um rapaz teimoso, não deixem que ele estrague a vida de vocês também. Helena olhou pro Caio. Ele estava com as mãos na maquete de vidro, e uma luz azul começou a emanar do chão, formando uma barreira ao redor delas. — Nem morta, seu velho desgraçado! — gritou Helena, segurando o caderno contra o peito. Lá em cima, o som de ferramentas pesadas batendo contra a estante começou. Eles iam entrar. Era só uma questão de tempo. — E agora, Caio? — sussurrou Helena, tremendo. — ...agora... a gente descobre quem corre mais. — Caio olhou pra um túnel escuro no fundo da sala. — ...aquele túnel sai direto nas dunas. Corram. Eu seguro eles aqui o máximo que eu puder. — Eu não vou te deixar! — Helena segurou o braço dele, sentindo o frio atravessar sua pele. — ...você não vai me deixar, Helena... você está levando o meu coração nesse caderno. Vá! Bia puxou Helena pelo braço. — Vamo, amiga! Confia nele! Se a gente ficar, o Jorge pega o mapa e aí já era pra todo mundo! Helena olhou uma última vez pro Caio. Ele deu um sorriso encorajador, e as luzes da sala começaram a brilhar com uma intensidade cegante. As duas mergulharam no túnel escuro no momento em que a estante lá em cima cedeu com um estrondo.
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