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Capítulo 6 Amizade, tretas e um rastro de sal

A manhã seguinte chegou com um gosto de metal na boca e um barulho de trovão que parecia vir de dentro do apartamento. Helena nem se deu ao trabalho de olhar no espelho; ela já sabia que estava o puro suco do caos. O tornozelo latejava, e a marca dos dedos acinzentados estava lá, firme e forte, lembrando que o "mar" tinha mãos e elas eram bem agressivas. Ela pegou o celular, as mãos ainda meio trêmulas, e ligou para a única pessoa que aguentava seus surtos sem julgamentos imediatos. — Alô, Bia? Tu tá viva? — Helena perguntou, enquanto tentava enfiar o pé num tênis largo pra não apertar o machucado. — Ô Helena, são sete da manhã de um sábado, criatura! Se não for pra dizer que a gente ganhou na loteria ou que o mundo vai acabar, eu vou te bloquear por uma semana. — A voz da Bia veio abafada, provavelmente com a cara enterrada no travesseiro. — Então, o mundo não vai acabar, mas a minha sanidade tá por um fio. Eu preciso da tua caminhonete e da tua coragem. Agora. Tem um... um negócio querendo me pegar e eu preciso ir pro farol velho. Houve um silêncio do outro lado da linha. Helena ouviu o barulho da Bia se sentando na cama. — Farol velho? Aquele que tá caindo aos pedaços? Helena, tu fumou o quê? Me diz que é um boy novo que mora lá e eu vou, mas se for pra fazer ritual satânico eu passo. — É um boy, mas é complicado. Ele tá morto, Bia. Mas ele é legal, juro! — ...Tô indo aí. Não sai da porta, não fala com estranhos e pelo amor de Deus, não toma nenhum remédio até eu chegar. Meia hora depois, a caminhonete surrada da Bia encostou na frente do prédio da Helena, fazendo mais barulho que um trator. Bia saiu do carro com um copo térmico de café na mão e um olhar que misturava preocupação e "eu não acredito que tô fazendo isso". Helena desceu as escadas quase tropeçando. Quando entrou no carro, o cheiro de lavanda da Bia entrou em conflito com o cheiro de maresia sufocante que emanava do caderno de Helena. — Caraca, que cheiro de peixe é esse, Helena? — Bia franziu o nariz, dando partida no carro. — Tu tá carregando uma rede de pesca na bolsa? — É ele, Bia. O Caio. — Helena tirou o caderno da bolsa. As páginas agora soltavam um vaporzinho frio. — Ele é um fantasma. Eu sei, parece papo de maluca, mas olha pro meu tornozelo. Helena levantou a barra da calça. Bia quase deixou o carro morrer quando viu a marca roxa em formato de mão. — Puta que pariu, Helena! — gritou a Bia, arregalando os olhos. — Que que é isso? Que tipo de crossfit espiritual tu andou fazendo? — Foi a Correnteza. — explicou Helena, enquanto o carro ganhava velocidade em direção à estrada do litoral. — O Caio morreu naquela praia faz três anos. Eu comecei a escrever pra ele e, de alguma forma, eu puxei ele pra cá. Só que o mar não quer deixar ele ir embora. Ele disse que se eu levar ele até a capela do farol, ele consegue se proteger. Bia ficou calada por um tempo, encarando a estrada. Ela apertou o volante com força, desviando de um buraco. — Olha, se fosse qualquer outra pessoa me falando isso, eu já tava te levando pro hospício. — Bia deu um gole no café. — Mas essa marca aí... e esse frio que tá fazendo dentro desse carro sendo que tá trinta graus lá fora... Tá bom, eu topo. Mas se eu morrer, eu vou ficar te assombrando pra sempre, tá ouvindo? — Valeu, Bia. De verdade. Tu é a melhor. — Eu sei, eu sou um anjo. Agora me diz, esse tal de Caio... ele é bonitão pelo menos? Se for pra arriscar a vida, que seja por um fantasma nota dez. Helena deu uma risadinha, a primeira do dia. — Ele é um gato, Bia. Tem um maxilar que... nossa. E usa uma camisa de linho que é um charme só. — ...ela tem bom gosto, Bia... pode confiar... — A voz do Caio ecoou pelo rádio da caminhonete, cortando a música que tocava baixo. Bia deu um grito, quase jogando o carro pro acostamento. — SANTO ANTÔNIO DAS CAUSAS IMPOSSÍVEIS! — ela fez o sinal da cruz umas dez vezes seguidas. — Ele falou! O rádio falou comigo! Helena, eu vou ter um treco! — Calma, guria! É só o Caio. Ele é educado, não viu? — Helena tentava conter o riso, apesar do nervosismo. — Educado é meu rabo! Ele quase me matou do coração! — Bia respirava fundo, tentando se acalmar. — Oi, Sr. Fantasma. Prazer, Bia. Não me mata, por favor, eu ainda tenho dez parcelas da caminhonete pra pagar. O caminho até o farol começou a ficar estranho conforme elas saíam da área urbana. O sol, que estava brilhando forte, foi sendo engolido por uma névoa cinza e pesada que saía do asfalto. A estrada de terra que levava ao penhasco do farol parecia estar se movendo, como se o chão estivesse respirando. De repente, o motor da caminhonete começou a falhar. — Não, não, não! Agora não, belezinha! — Bia batia no painel. — Vamos, pega! — Bia, olha pra frente! — gritou Helena. No meio da estrada, a uns cinquenta metros, uma onda imensa de água escura, cheia de detritos e galhos, começou a se formar do nada, bem no meio da terra firme. Não tinha lógica física, era como se o oceano estivesse vomitando uma parte de si na estrada pra bloquear a passagem. — Ai meu Deus, a gente vai morrer afogada no seco! — Bia gritou, engatando a marcha ré. — Não para! — Helena sentiu o caderno queimar na sua mão. — Caio, faz alguma coisa! As páginas do caderno começaram a folhear sozinhas, com uma velocidade frenética. Uma luz azulada, fria e intensa, começou a sair de dentro da bolsa da Helena. O vulto do Caio se materializou no banco de trás, mas ele parecia estar fazendo um esforço hercúleo. O rosto dele estava retorcido de dor, e as mãos dele estavam esticadas em direção ao para-brisa. — ...acelera, Bia... não olha pra onda... ACELERA! — a voz dele não era mais um sussurro, era um comando que vibrava nos ossos delas. Bia, no puro instinto de sobrevivência, socou o pé no acelerador. O motor deu um esturro, soltou uma fumaça preta e a caminhonete voou em direção à barreira de água. Helena fechou os olhos e segurou o caderno contra o peito. Ela sentiu o impacto. Foi como atravessar uma parede de gelo moído. O som era ensurdecedor — um grito agudo de mil vozes debaixo d'água misturado com o metal da caminhonete rangendo. Quando ela abriu os olhos, o carro tinha atravessado. Elas estavam do outro lado, mas a caminhonete estava coberta de algas e conchas quebradas, e o para-brisa estava todo trincado. — A gente... a gente passou? — Bia perguntou, com a voz falhando, tremendo mais que gelatina. — Passamos. — Helena olhou pro banco de trás. Caio estava quase transparente. Ele parecia uma imagem de holograma ficando sem bateria. Os olhos dele encontraram os da Helena por um segundo, e ela viu uma gratidão profunda ali. — ...quase lá... a capela... — ele murmurou antes de sumir completamente. Bia olhou pelo retrovisor e depois pra Helena. — Amiga, se a gente sair dessa viva, eu quero um combo de hambúrguer de três andares e uma garrafa de tequila. Por conta da casa. — Eu te dou uma fábrica de tequila se tu quiser, Bia. Só tira a gente desse pesadelo. Elas continuaram subindo o morro. O farol velho apareceu no horizonte, uma torre de pedra branca descascada que parecia um dente quebrado na boca de um gigante. Ao lado dele, a pequena capela de pedra, com o telhado de telhas coloniais, parecia o único lugar seguro no mundo. Mas o mar lá embaixo não estava feliz. As ondas batiam no penhasco com tanta força que o chão tremia. Dava pra ver vultos escuros saindo da água e rastejando pelas pedras, como sombras que não queriam ser vistas. — Helena, aquelas coisas ali embaixo... são o que eu tô pensando? — Bia apontou, com o dedo trêmulo. — São os "amigos" da Correnteza. — Helena apertou o caderno. — Elas não querem que o Caio entre na capela. — Pois elas que se preparem, porque eu não fiz curso de direção defensiva pra perder pra sombra de sereia! — Bia deu um cavalo de pau e parou a caminhonete bem na porta da capela. — Vai, Helena! Corre com esse caderno pra dentro! Eu seguro a porta! Helena não pensou duas vezes. Ela abriu a porta do carro e correu. O vento estava tão forte que parecia que ia carregar ela penhasco abaixo. O cheiro de podridão era forte, e ela ouvia risadas vindo de todos os lados. — Vem, Caio! — ela gritou, sentindo o peso do caderno ficar quase insuportável. — A gente chegou! Ela tropeçou num degrau de pedra e caiu de joelhos. Uma sombra fria passou por ela, arrancando um pedaço da sua jaqueta. Helena sentiu um pânico absurdo, mas a imagem do Caio sofrendo no banco de trás deu um gás nela. Ela se levantou, empurrou a porta pesada de madeira da capela e entrou. O silêncio lá dentro foi instantâneo. Assim que ela cruzou o batente, o barulho do vento e os gritos das sombras sumiram. O ar lá dentro era seco, calmo e tinha cheiro de cera de vela velha. Bia entrou logo atrás, batendo a porta e trancando o ferrolho de ferro com força. As duas caíram no chão, ofegantes. — Meu Deus... meu Deus... — Bia estava pálida, com o cabelo todo bagunçado. — Helena, que porra foi essa? Aquilo não era desse mundo não, viu? Helena não respondeu. Ela abriu o caderno no chão de pedra da capela. No centro do altar, a luz da tarde entrava por um vitral quebrado, formando um círculo no chão. O vulto do Caio começou a aparecer ali, sentado nos degraus do altar. Ele parecia mais sólido do que nunca. A luz do sol atravessava ele, mas ele não sumia. — ...obrigado... — ele disse, com a voz firme. — ...aqui... as paredes têm memória de oração. O mar não tem poder sobre o que foi construído com fé. Helena caminhou até ele, as pernas ainda meio bambas. — Tu tá bem? — perguntou ela, chegando perto. — ...tô... por causa de vocês. — Caio olhou para a Bia. — ...Bia, você dirige como uma louca. Gostei. Bia deu um sorriso meio torto, ainda tentando processar tudo. — Valeu, Gasparzinho. Mas da próxima vez, a gente pega um Uber, beleza? Helena sentou no degrau ao lado do Caio. Por um momento, ela esqueceu do medo, da Correnteza e de tudo. Ela só sentia que, naquela capela velha, entre o pó e o silêncio, ela tinha finalmente encontrado um lugar onde a solidão dela e a dele se transformavam em algo novo. — E agora, Caio? — perguntou Helena. — A gente fica aqui pra sempre? — ...não... agora a gente começa a descobrir como me trazer de volta de verdade. Helena olhou pra ele, surpresa. Ela achava que o objetivo era só salvar ele do mar, mas o Caio tinha planos maiores. E ela sabia que, com a Bia do lado e o coração cheio de coragem, ela ia até o fundo do oceano se precisasse.

หนังสือแสดงความคิดเห็น (205)

  • avatar
    ZoroRonoa

    n gostei

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    Hemilie Jeovana

    ótimo amei

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    Gabrielle

    muito bom

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