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Capítulo 5 O mar não aceita desaforo

Helena acordou se sentindo a própria protagonista de filme de fantasia, mas a realidade bateu na porta com a força de um boleto vencido. Ela tinha passado a noite em claro conversando com o Caio, e o resultado foi uma olheira que nem o melhor corretivo do mundo ia dar jeito. Ela estava se sentindo leve, sabe? Mas tinha um "porém" que não saía da cabeça dela: como diabos ela ia arrastar um fantasma pro meio da cidade sem que algo desse muito errado? Ela se arrumou correndo, vestiu uma calça cargo cheia de bolsos — pra enfiar o caderno de cartas bem perto do corpo — e saiu. No caminho pro trabalho, ela sentia o Caio. Não era como na praia, onde ele aparecia todo nítido. Na cidade, entre o barulho dos ônibus e o cheiro de poluição, ele era só um "vulto" que dava um frio na nuca de vez em quando. — Tá por aí, né? — sussurrou ela enquanto esperava o sinal fechar. — ...tô... mas aqui é barulhento demais, Helena... dói um pouco... — a voz dele veio como um eco distante, bem fraquinha. — Aguenta a mão aí, Caio. A gente já chega na agência e tu descansa num canto. Na agência, o clima estava mais pesado que de costume. E não era só por causa do Sr. Jorge. Tinha uma energia esquisita no ar, um cheiro de água parada que não saía de jeito nenhum. A Bia estava sentada na mesa dela, roendo as unhas e olhando pro teto. — Helena, tu não sabe o que aconteceu. — disse Bia, sem nem dar bom dia. — Ih, lá vem. O Sr. Jorge infartou? — Quem dera! A fiação da sala de reuniões simplesmente derreteu hoje cedo. Do nada! O eletricista disse que parecia que tinha caído um raio lá dentro, mas o céu tava azulzinho. E tem mais... as câmeras de segurança pegaram um vulto andando pelo corredor de madrugada. Helena sentiu o sangue fugir do rosto. Ela olhou pro caderno em cima da mesa. O caderno estava vibrando. Bem de leve, mas estava. — Vulto? Ah, para, Bia. Deve ser reflexo, poeira na lente... essas câmeras são uma porcaria. — tentou disfarçar Helena, sentindo um suor frio. — Poeira nada, fia! O negócio tinha forma de gente. E sabe o que é mais doido? Onde o vulto passava, as plantas morriam na hora. Olha aquela samambaia ali no canto. Helena olhou. A samambaia, que ontem estava linda e verde, agora era um amontoado de gravetos secos e pretos. Ela sentiu o peito apertar. "Caio, tu fez isso?", pensou ela, mas a resposta que veio na cabeça dela não foi a dele. Foi uma risada rouca, gelada, que não tinha nada a ver com o jeito doce do arquiteto. Na hora do almoço, Helena se trancou no banheiro, sentou na tampa do vaso e abriu o caderno. As páginas estavam úmidas, como se tivessem sido mergulhadas no mar. — Caio, fala comigo! Que que tá rolando? Tu tá quebrando a agência toda? — sussurrou ela, desesperada. A imagem dele apareceu no reflexo do azulejo branco, mas ele estava diferente. Estava pálido, com uma expressão de dor, e tinha umas sombras pretas, tipo uns tentáculos de fumaça, enroladas nos pulsos dele. — ...não sou eu, Helena... — ele disse, e a imagem dele oscilou. — ...o mar... o mar percebeu que eu tô saindo. Ele mandou o que fica no fundo pra me buscar. — O quê? Como assim "o que fica no fundo"? Tá me dizendo que tem um agiota espiritual atrás de ti? — Helena tentou brincar pra não chorar de medo. — ...é a Correnteza. Ela não deixa ninguém partir sem pagar o preço. Quando você me puxou com as cartas, você abriu um buraco. E agora o que tá lá embaixo quer passar por ele também. De repente, a luz do banheiro piscou e estourou. Catarabum! Cacos de vidro voaram pra todo lado. Helena se encolheu, cobrindo a cabeça com as mãos. — Mas que droga! — gritou ela. — Sai daqui! Deixa ele em paz! O chão do banheiro começou a minar água. Não era água de cano estourado. Era água salgada, com cheiro de alga podre e morte. A água subia rápido, gelando os pés de Helena através do tênis. Ela sentiu uma mão invisível — mas essa não era a de Caio — agarrar o tornozelo dela com uma força bruta. — Socorro! — ela gritou, tentando puxar a perna. — HELENA! SAI DAÍ! — a voz do Caio ecoou, dessa vez tão forte que fez as paredes vibrarem. Ele apareceu por um segundo, nítido pra caramba, e se jogou contra a sombra que segurava ela. Foi como um choque elétrico. Uma onda de frio e calor se misturou, e Helena foi arremessada contra a porta do banheiro. Ela abriu a trava com tudo e caiu no corredor, ofegante, com o coração parecendo que ia furar o peito. A Bia veio correndo, junto com mais dois colegas. — Helena! Meu Deus! Tu tá bem? Que barulho foi esse? — Bia ajudou ela a levantar. — O... o box de luz estourou. Eu me assustei e escorreguei. — mentiu Helena, tremendo da cabeça aos pés. Ela olhou pra dentro do banheiro. O chão estava seco. Não tinha água salgada, não tinha cheiro de alga. Só os cacos de vidro da lâmpada no chão. Mas quando ela olhou pro próprio tornozelo, viu a marca. Cinco dedos roxos, quase pretos, apertando a pele dela. — Caramba, Helena, tu se ralou toda! — comentou Bia, apontando pra perna dela. — Melhor tu ir pra casa, tu tá branca igual um papel. — É... eu vou. Eu preciso... eu preciso de ar. — Helena pegou a bolsa, o caderno (que agora estava quente como brasa) e saiu sem nem olhar pro Sr. Jorge, que estava saindo da sala dele pronto pra dar esporro. Ela foi caminhando pra casa, mas parecia que o caminho tinha ficado mais longo. Cada bueiro que ela passava, parecia que vinha um sussurro lá de dentro. A cidade, que antes era só barulho de carro, agora parecia cheia de sombras espiando pelas frestas das janelas. Quando chegou no apartamento, ela trancou tudo, fechou as cortinas e acendeu todas as luzes que tinha. Ela jogou o caderno na mesa e se afastou. — Caio? Tu tá aí? — chamou ela, com a voz baixinha. Nenhuma resposta. O silêncio era absoluto, o que era pior do que o barulho. Helena sentou no sofá, abraçando os joelhos, sentindo o roxo no tornozelo latejar. — Eu não devia ter te tirado de lá... eu sou uma idiota. — disse ela, chorando de verdade agora. — Eu queria um romance, e acabei trazendo um demônio marinho pra passear no centro da cidade. Passaram-se uns dez minutos até que a televisão da sala ligou sozinha. Estava sem sinal, só aquela estática cinza e barulhenta. Helena se encolheu mais ainda no sofá. — ...não... se arrependa... — a voz do Caio saiu pelos alto-falantes da TV, meio distorcida, mas ainda era ele. — ...eu lutei com ela. Ela voltou pro fundo, mas não vai desistir. Ela sentiu o teu cheiro, Helena. O cheiro da tua vida. — E o que a gente faz, Caio? Eu não posso te devolver pro mar se isso significa que tu vai ser devorado por essa coisa! — ...precisamos de proteção. Tem um lugar... um lugar que eu projetei... uma capela velha perto do farol. O mar não entra lá. Se você conseguir me levar até lá amanhã à noite, eu consigo me estabilizar. — No farol? Mas aquilo tá abandonado faz anos, Caio! Dizem que a estrutura tá toda podre. — ...confia em mim... eu sou o arquiteto, esqueceu? Eu sei onde as vigas ainda são fortes. Mas Helena... você vai ter que ser corajosa. Ela vai tentar te impedir de chegar lá. Helena olhou pro caderno. O papel estava começando a queimar nas bordas, sem fogo, apenas virando cinza preta. — Eu vou. Eu não vou te deixar na mão, seu vulto convencido. — disse ela, limpando as lágrimas e tentando recuperar um pouco da marra. — Só que tu vai ter que me ajudar a não morrer no caminho, beleza? Porque se eu morrer, quem é que vai escrever tuas cartas? — ...eu te protejo com o que sobrou de mim, Helena. Durma agora. Você vai precisar de força. A TV desligou. Helena ficou ali no escuro, ouvindo o som da chuva que começava a cair lá fora. Não era uma chuva comum. Era uma chuva que tinha cheiro de sal. O mar estava vindo buscar o que era dele, e Helena sabia que a briga estava só começando. — É, Helena... a tua vida amorosa realmente é de outro mundo. — resmungou ela, deitando no sofá mesmo, sem coragem de ir pro quarto. Ela segurou o caderno contra o peito. O calor que vinha dele agora era reconfortante, como se o Caio estivesse ali, segurando a mão dela enquanto a tempestade lá fora ganhava força. Ela sabia que o dia seguinte ia ser o mais louco da vida dela, mas por incrível que pareça, ela não queria estar em nenhum outro lugar.

หนังสือแสดงความคิดเห็น (207)

  • avatar
    MariaAline

    e bom

    6h

      0
  • avatar
    SocorroBruh

    gostei,o tema é bastante atrativo, recomendo muitooo

    7h

      0
  • avatar
    ZoroRonoa

    n gostei

    1d

      0
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