Helena acordou com o despertador do celular gritando "Acorda, Pedrinho" no pé do seu ouvido, e a vontade dela era de arremessar o aparelho na parede. A noite tinha sido uó. Sabe quando você dorme, mas parece que sua alma ficou fazendo crossfit? Pois é. Ela rolou na cama, sentindo o lençol todo embolado nas pernas, e ficou encarando o teto de gesso descascado do estúdio. — Puta que pariu, Helena... — resmungou ela, com a voz rouca de sono, passando a mão no rosto. — Tu conversou com um vulto. Um vulto de camisa de linho. Se isso não for um surto psicótico, eu não sei mais o que é. Ela levantou, arrastando os chinelos de borracha pelo taco de madeira. O sol entrava pela fresta da cortina, revelando a poeira dançando no ar. Tudo parecia normal demais pra quem tinha visto pegadas se formarem sozinhas na areia poucas horas antes. Ela foi direto pra cozinha — que era basicamente uma bancada de granito com um fogão de duas bocas — e colocou a água pra ferver. Enquanto esperava o café, ela sentiu um negócio esquisito. Um arrepio, mas não era aquele de medo, era como se o ar do apartamento tivesse ficado subitamente mais denso, tipo quando você entra num quarto cheio de gente, mas o quarto tava vazio. — Ô Caio, se tu tá aí e for um encosto educado, já vai avisando. — disse ela, rindo de nervoso enquanto pegava a caneca. — Eu não tô pronta pra ver gente morta antes de tomar cafeína, beleza? É a regra número um da casa. Ela tomou um gole do café preto, forte pra caramba, e soltou um suspiro. Do nada, o rádio de pilha que ela deixava em cima da geladeira — um troço velho que só pegava chiado — deu um estalo. Zzzzz... tssss... — ...bom dia... — um sussurro saiu do meio do chiado, tão rápido que ela quase achou que era ilusão. Helena paralisou com a caneca na boca. — Tá de sacanagem... — ela chegou perto do rádio. — Caio? É tu fazendo essa palhaçada? O rádio silenciou de novo. Helena deu dois tapinhas no aparelho, mas nada aconteceu. Ela balançou a cabeça, achando que a falta de sono tava começando a derreter os neurônios dela. O dia no escritório foi uma tortura. Helena trabalhava numa agência de marketing de médio porte, daquelas que tentam ser "descoladas" mas que drenam a alma da gente com prazos impossíveis. Ela ficava num cubículo apertado ao lado da Bia. — Amiga, tu tá com uma cara de quem foi atropelada por um caminhão de lixo. — mandou a Bia, assim que Helena sentou na cadeira. — E esse roxo no pescoço? Que que é isso? Helena correu a mão pro pescoço, sentindo o lugar onde o "sopro" de Caio tinha encostado na noite anterior. Ela se olhou na câmera do computador. Não era um roxo de batida ou de "chupão", era uma manchinha clara, meio acinzentada, como se alguém tivesse encostado um dedo gelado ali por tempo demais. — Não é nada, Bia. Acho que dormi de mal jeito em cima da mão. — mentiu ela, puxando o colarinho da blusa. — Sei, dormiu em cima da mão do Jason do Sexta-Feira 13, né? Tá estranha demais, guria. Tu tá pálida, parece que viu um espírito. Helena deu um sorriso amarelo, sentindo um suor frio descer pelas costas. — Tu não tem noção do quanto tá certa, viu? Mas e aí, qual é a fofoca do dia pra eu tentar focar em algo que não seja meu colapso mental? — Ih, o Sr. Jorge tá querendo que a gente entregue a campanha daquela marca de protetor solar pra ontem. O cara tá um veneno. Diz que se a gente não tiver uma "ideia brilhante" até as seis, vai todo mundo fazer hora extra de graça. — Maravilha. — Helena revirou os olhos. — Tudo que eu precisava hoje era vender sol sendo que eu só quero morar no escuro. Ela tentou digitar, mas toda vez que ela começava uma frase, parecia que alguém estava lendo por cima do ombro dela. Era uma sensação de proximidade física, sabe? Como se alguém estivesse encostado na parte de trás da cadeira dela, observando cada movimento do mouse. — Dá pra parar? — sussurrou ela, irritada, olhando pro nada. — Parar o quê? — perguntou Bia, sem tirar o olho do monitor. — O... o barulho da ventilação. Tá me dando dor de cabeça. — inventou Helena, sentindo o coração martelar. Na hora do almoço, ela não aguentou. Precisava de ar. Saiu da agência e foi caminhar numa pracinha ali perto. Sentou num banco de madeira descascado, embaixo de uma árvore imensa. O sol estava rachando, mas Helena ainda sentia aquele ponto frio no pescoço. — Caio, eu sei que tu tá por aqui. — falou ela baixinho, fingindo que estava mexendo no celular pra ninguém achar que ela era uma moradora de rua falando com as pombas. — Tu disse que não ia me seguir, seu mentiroso. Isso não vale. De repente, o vento soprou mais forte, fazendo as folhas secas no chão rodopiarem num círculo perfeito bem na frente dos pés dela. Uma das folhas, uma bem amarela e murcha, voou e pousou exatamente no colo dela. Helena pegou a folha e viu que tinha algo marcado nela. Não era tinta, parecia que alguém tinha pressionado a unha, deixando vincos que formavam palavras. "Eu não te segui. Eu só... fui puxado." Helena sentiu um nó na garganta. — Puxado como? Tipo um ímã? — perguntou ela, esquecendo completamente das pessoas em volta. Um cara que passava com um cachorro olhou torto pra ela, e Helena fingiu que estava falando com o fone de ouvido, gesticulando igual uma doida. — ...as cartas... — a voz de novo, dessa vez não veio de rádio nenhum, pareceu vir de dentro da cabeça dela. — ...você me deu um nome. Agora eu tenho um lugar pra ficar. Helena sentiu um calafrio tão forte que os dentes chegaram a bater. Ela percebeu que, por mais que estivesse assustada, não conseguia sentir raiva. Tinha uma solidão naquela voz, uma coisa tão profunda que fazia a tristeza da Helena parecer um chuvisco perto de um furacão. — Então tu tá dizendo que agora tu mora no meu rastro? É isso? Que bizarro, Caio. — ela soltou uma risada curta, meio histérica. — Pelo menos tu não ocupa espaço no armário. Mas ó, tu precisa me contar quem tu era. Onde tu morava? Por que tu ficou preso na praia? A folha no colo dela se desintegrou, virando pó em segundos, mesmo sem Helena ter apertado. Ela entendeu o recado: aquele não era o lugar pra conversa longa. A luz do dia era "barulhenta" demais pro que ele era. Quando o expediente finalmente acabou — depois de muita bronca do Sr. Jorge e três xícaras de café frio — Helena voltou pra casa exausta. Ela morava num bairro onde as luzes de neon dos bares começavam a piscar logo cedo. O apartamento dela ficava em cima de uma padaria que cheirava a pão quente o tempo todo, o que era a única coisa boa daquela localização. Ela entrou, jogou a bolsa no sofá de veludo azul (que ela comprou num brechó e tinha um furo no braço) e foi direto pro banheiro. Precisava de um banho quente pra tirar aquela sensação de "presença" da pele. Enquanto a água caía, Helena ficou pensando no Caio. Ela tentava imaginar como seria a vida dele antes de virar aquele vulto. Ele parecia ter uns 25, 27 anos na visão que ela teve na praia. Tinha um rosto marcante, maxilar travado e aquela camisa de linho... parecia alguém que estava indo pra uma festa na praia ou um jantar romântico antes de algo dar muito errado. Ela saiu do banho, se enrolou na toalha e, quando o vapor do espelho começou a baixar, ela viu. Não era ele. Mas no espelho embaçado, alguém tinha desenhado um coraçãozinho torto e escrito: "Rua das Palmeiras, 402. Gostei do sofá." Helena soltou um grito abafado, cobrindo a boca com a mão. — Ah, não! Aí já é demais! — gritou ela, saindo do banheiro e olhando pro sofá. — No sofá não, Caio! Tu não paga condomínio pra ficar folgado assim! Ela estava morrendo de medo, mas tinha um sorriso teimoso querendo aparecer. Ela nunca tinha sido notada por ninguém daquele jeito. Nem pelos caras vivos que ela namorou, que mal lembravam o sabor de pizza favorito dela. E ali estava um cara, ou o que sobrou de um, que atravessava o véu da realidade só pra comentar do sofá dela. Ela vestiu um pijama de flanela bem grosso — porque o clima estava ficando cada vez mais gelado onde ela passava — e pegou o caderno de novo. — Bom, já que tu tá aqui e gosta de ler... vamos estabelecer umas regras. — disse ela, sentando na mesa da cozinha. — Regra número um: não me espia no banho, senão eu chamo um padre, um pai de santo e um Ghostbuster, entendeu? Ela começou a escrever a carta daquela noite, mas dessa vez não era sobre a dor dela. Era sobre ele. "Caio, tu é o vizinho mais estranho que eu já tive, e olha que o cara do 301 cria furão escondido. Se tu quer mesmo que eu te ajude a não desaparecer, tu vai ter que abrir o jogo. O que aconteceu contigo naquela praia? Foi acidente? Foi... outra coisa? E por que eu? Tem um monte de gente que escreve groselha por aí, por que as minhas cartas te 'puxaram'?" Helena parou de escrever quando sentiu o ar ficar morno de repente. Um calor suave, como se alguém estivesse abraçando ela por trás, sem encostar de verdade. O cheiro do apartamento mudou. Não era mais pão da padaria nem o cheiro de mofo do prédio. Era cheiro de mar depois da chuva. Limpo, salgado e fresco. — ...porque você é a única que escreve com a verdade... — o sussurro veio direto no pé do ouvido dela, fazendo-a dar um sobressalto. — ...e porque você é a única que não tem medo de mim, Helena. — Quem disse que eu não tenho medo? — ela retrucou, com o coração na boca. — Eu tô tremendo igual vara verde, seu tonto! Mas no fundo, ela sabia que ele tinha razão. O medo dela era pequeno perto da conexão que estava crescendo ali. Era um romance proibido pelas leis da física, um negócio doido que não tinha como dar certo, mas que era a coisa mais emocionante que tinha acontecido na vida dela em anos. — Tá bom, "Gasparzinho". — disse ela, fechando o caderno. — Amanhã a gente vai pra praia de novo. E vê se não some, porque agora eu já me acostumei com esse cheiro de mar no meu quarto. Helena deitou e, pela primeira vez em muito tempo, dormiu um sono sem pesadelos. Ela sonhou com uma festa, luzes de gambiarra e um cara de camisa de linho rindo pra ela, enquanto o mar batia nos pés deles.
e bom
21h
0gostei,o tema é bastante atrativo, recomendo muitooo
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