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Capítulo 3 Onde o frio não é do vento

Helena morava num apartamento que era a cara de quem vive sozinha e não tem tempo pra frescura. Era um estúdio no quarto andar de um prédio antigo, daqueles com o pé direito alto e taco de madeira que rangia toda vez que ela dava um passo em falso. As paredes eram cheias de prateleiras com livros de capa dura e umas plantas que sobreviviam na base do milagre. Ela tinha aquele estilo "largado chique": vivia de calça jeans larga, umas regatas básicas e o cabelo castanho, sempre meio ondulado e bagunçado, preso num coque alto que vivia despencando. Tinha olhos cor de mel que, dependendo da luz, pareciam ficar verdes, mas que no fundo sempre carregavam uma olheira de quem não dorme direito desde 2010. Naquela noite, ela estava na frente do espelho do banheiro, encarando a própria cara e passando um hidratante qualquer. — Tu tá ferrada, Helena. — disse ela pro reflexo, enquanto ajeitava o casaco. — Tá indo encontrar um fantasma ou um doido, e ainda por cima tá ansiosa. Que mico. Ela morava na parte mais boêmia da cidade litorânea, um bairro chamado Ponta da Areia, onde o cheiro de peixe frito dos quiosques se misturava com o salitre do mar. Ela pegou a chave, desceu as escadas — porque o elevador fedia a cigarro e ela preferia o exercício — e saiu na rua. O céu estava estranho. Não era só nuvem, era uma névoa baixa, uma cerração que parecia engolir os postes de luz. Caminhando pro mar, ela sentiu um arrepio que não era de frio. Era como se a calçada estivesse vibrando. — Ih, pronto. Vai dizer que agora vai chover pra completar o combo de filme de suspense? — resmungou ela, apertando o passo. Quando chegou na areia, o cenário era de arrepiar os pelinhos do braço. A maré estava baixa pra caramba, muito mais do que o normal. Dava pra ver umas rochas lá no fundo que ela nunca tinha visto antes. E o silêncio... gente, o silêncio estava pesado. Não dava nem pra ouvir as gaivotas que costumavam fazer algazarra até de madrugada. Helena foi até o "posto de troca" das cartas. O envelope pardo estava lá, mas algo estava diferente. O papel parecia emanar um calorzinho, uma coisa meio doida, como se tivesse acabado de sair de um forno. Ela pegou o papel e sentou na areia molhada mesmo, sem se importar em sujar a calça. "Fala, Helena (chutei o nome, mas acho que combina contigo). Tu reclamou da minha letra, mas a sua parece um eletrocardiograma de quem tá tendo um treco. Relaxa o pulso, garota! E fica sussa, não sou tiozinho de 60 anos querendo dar sermão e nem moleque te zoando. Na real, eu nem sei bem como te explicar o que eu sou, mas eu tô aqui. E sim, eu te vi, mas não foi com os olhos que tu tá acostumada. Eu sinto o teu rastro na areia antes mesmo de tu pisar nela." Helena parou de ler e olhou em volta, o coração dando um triplo mortal. — Rastro na areia? O que esse maluco tá falando? — sussurrou, sentindo a boca secar. Ela continuou lendo: "Tu perguntou se eu sou real. Sou tão real quanto essa dor que tu escreve no papel. Meu nome é Caio. Ou era. É complicado. Eu moro onde o vento faz a curva, mas ultimamente, meu endereço fixo tem sido essa pedra onde tu deixa teus segredos. Tu disse que tem medo de desaparecer... eu já desapareci faz um tempo, Helena. E acredita em mim: ser visto por alguém, mesmo que seja por um papel, é a única coisa que segura a gente aqui." Helena sentiu um baque no peito. Caio. O nome era comum, mas o jeito que ele falava... tinha uma melancolia que não parecia humana. Era algo antigo, algo que vinha lá do fundo do oceano. — Caio... — ela testou o nome na boca. — Tá de brincadeira que eu tô conversando com um encosto literário. De repente, a névoa ao redor dela se fechou. Ela não conseguia ver nem a linha da água, nem as luzes da cidade. Era como se ela estivesse dentro de uma bolha. E foi aí que aconteceu. Uma mão, ou o que parecia ser uma, tocou de leve o ombro dela. Não era um toque de carne e osso. Era como se um sopro de gelo tivesse atravessado o seu casaco e encostado direto na pele. — Caraca! — ela deu um pulo, derrubando o caderno na areia. — Quem tá aí? Aparece, porra! Se for pra me assaltar, eu só tenho um celular com a tela trincada e dez reais! Ninguém respondeu. Mas o rastro na areia ao lado dela... ele começou a afundar. Como se alguém estivesse ali, parado, observando. As pegadas iam se formando sozinhas, uma do lado da outra, mas não tinham pés. Era só a pressão na areia, como se um peso invisível estivesse ali. Helena ficou estática. O medo era real, mas a curiosidade era aquele bicho que morde a gente e não solta. — Caio? — chamou ela, com a voz falhando. — É tu, ô espertinho? Isso é algum truque? Algum projetor? Holograma? Um sussurro passou pelo ouvido dela, tão baixo que parecia só o vento, mas as palavras eram nítidas: — Ainda não... mas quase. Helena sentiu as pernas tremerem e caiu sentada. Ela olhou pras pegadas invisíveis e, por um segundo, a névoa se abriu e ela viu um vulto. Era um cara. Ele parecia alto, usando uma camisa de linho toda amassada e calças escuras. O rosto era meio embaçado, como se tivesse uma camada de água entre eles, mas ela viu que ele tinha o cabelo bem curto e uns olhos que brilhavam num azul quase branco. Ele não parecia um monstro. Parecia... triste. E muito bonito, de um jeito que doía olhar. Ele esticou a mão como se fosse pegar o caderno dela no chão, mas a imagem dele oscilou, como uma TV sem sinal, e ele sumiu. A névoa se dissipou num estalo e o barulho do mar voltou com tudo, como se alguém tivesse ligado o som no volume máximo. Helena ficou ali, ofegante, tentando processar o que acabou de ver. — Tá... eu definitivamente preciso de terapia. Ou de um exorcista. — ela pegou o caderno, as mãos ainda trêmulas. — O cara é um fantasma. Eu tô mandando cartinha pra um defunto. Ela pegou a caneta e, mesmo sem luz direito, começou a escrever freneticamente na página seguinte do caderno. — Caio, se tu tá me ouvindo, ou me vendo, ou seja lá o que tu faz... que porra foi essa? Tu quase me matou do coração! Se tu é um espírito, tu devia estar assombrando um castelo ou algo assim, não lendo as minhas lamúrias na praia! E outra coisa: tu é bem mais novo do que eu imaginei. Por que tu tá preso aqui? Ela parou, olhou pro lugar onde as pegadas estavam e sentiu uma vontade louca de chorar. Não de medo, mas de solidão. Porque se aquele cara, o Caio, estava ali preso naquele "entre-lugares", ele devia ser o cara mais sozinho do mundo. E Helena entendia de solidão como ninguém. — Olha, eu vou deixar isso aqui. — disse ela, falando pro vazio. — Mas amanhã tu me explica essa palhaçada de "já desapareci". Eu moro na Rua das Palmeiras, 402. Se tu for vir me assombrar em casa, pelo menos não quebra nada, que o aluguel é caro. Ela deixou a resposta e saiu quase correndo. O caminho de volta pareceu eterno. Cada sombra de árvore parecia o vulto de linho amassado. Quando entrou no apartamento, trancou a porta com todas as trancas possíveis, encostou as costas na madeira e escorregou até o chão. — Helena, sua maluca... tu acabou de convidar um fantasma pra sua casa? — perguntou pra si mesma, cobrindo o rosto com as mãos. — A Bia vai dizer que eu finalmente coringuei de vez. Ela foi pro quarto, mas não acendeu a luz. Ficou deitada olhando pro teto, sentindo aquele gelo no ombro onde o toque tinha acontecido. Não era um frio ruim. Era como se, por um segundo, ela tivesse deixado de ser invisível pro resto do universo. E lá fora, na praia, o papel que ela deixou brilhava de leve sob a luz da lua, esperando ser lido por olhos que não pertenciam mais a esse mundo.

หนังสือแสดงความคิดเห็น (207)

  • avatar
    MariaAline

    e bom

    1d

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    SocorroBruh

    gostei,o tema é bastante atrativo, recomendo muitooo

    1d

      0
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    ZoroRonoa

    n gostei

    2d

      0
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